quarta-feira, outubro 20, 2010

6 de Agosto en Río

"6 de Agosto en Río"
Ao som de Ternura Antiga
Cyber Machado alberga a minha verdadeira epifania final, talvez aquela escrita ansiada há tempos e há séculos prevendo a sua liberação na noite mais quente de inverno.
Os versos foram abolidos todos e todinhos e vivemos agora o refluxo daquela vaga conservadora daqueles tempos.
Se tudo é uma farsa farei do Rio o meu cenário inicial, recomeçando o meu holocausto imolando todas as minhas agruras que insisto em conjugar na primeira pessoa atrevida que chegou aqui e deu pra falar eu
Aqui, onde o vento faz a curva, aqui nesse largo tão estrangeiro e tão familiar imolarei o meu cordeiro calmamente sem vontade alguma de me prender a escrita automática ou a deixar fluir a hipocrisia e a passividade do meu motor
Tu que viste todas aquelas letras
Tu mermão que te atreveu a ler o teclado e a desorganizar todas as letrinhas
Tu que brincaste levianamente com Ginsberg agora se dá conta agora se dá conta de que todos os pretos velhos mentiam quando diziam a liberdade que serás também que serás tão bela que serás tão linda
Tu que zombaste da frase es corto pero feliz tu que zombaste da frase final que pronunciaste em teu francês miojônico Aime moi moins, mais aime moi plus longtemps, enrolando a língua beijinho, beijinho tchau, tchau
E agora que fará você sem as suas lindas mais lindas calles canções que te encantam que te cantam que te fazem que te levam assim sem cessar o teu pasaje a tua passagem São Sebastião eternamente flechado na Avellaneda em tarde de fim de maio triste e desolado se eu soubesse não teria sido dessa forma seguir, cruzar a Rio de Janeiro todinha, pois amor, pois amor em Boedo enterrei meu coração e o ofertei a princesa final que da janela chorava as suas lágrimas para mim
E eu as recolhia pouco a pouco sonhando em voltar a gostar de ler com o mesmo tesão de sempre a Clarice Lispector que sentava inquisitoriamente no divã e te observava e te fitava de longe
Deus, se há chance, se há oportunidade, você vai deixar eu tirar o demônio do meu corpo já que estou assim tão distante da Corrientes 4000, Corrientes 4000,
Ouça sentenças breves, Icaraí is changing, the times they are changing but Icaraí ta indo rápido demais, deixa eu correr e tomar o bonde da história que ta difícil e eu não quero mais soprar o meu amor a conta gotas nem a minha vista falida e mal educada cantando-te as mais lindas canções daquela que se chama Mariana
Sonhar toda a vida ou viver todo o sonho sonhar toda a vida ou viver todo o sono pois encostei aqui na 2 de dezembro staring a multidão que passa aflita nessa hora mais delicada do dia, nessa hora que todo mundo tem amor próprio e que os casais mais se amam, nessa hora que não é nem tarde nem noite nessa hora em que a gente tem uma casa nessa hora em que a culpa de existir é uma mera palavrinha nessa hora em que a gente sente mais seja a dor seja a alegria seja a vontade de estar em casa repousando eternamente nos sons de minha samambaia.
Meu amor vou deixar a casa aberta, já escuto os teus passos procurando a chave e nem penses em entrar assim, em abrir a porta do meu coração antes do Miles Davis engasgar no som da minha decência, você torce para que tudo meu dê certo, amor até que ponto a gente se acostuma até que ponto a gente tem vontade de nós mesmos, até que ponto amor, até que ponto meus olhos não são falsos, até que ponto há tanto amor amor, até que ponto o Jardim Botânico está lejos com suas frutas podres, até que ponto o tempo está mudando amor
Poderia inclusive experimentar religião nesse horário e ir assim rastejando até a Igreja de São Sebastião e dividir espaço com elezinho lá todo flechadinho, tadinho, exibindo o seu corpinho assim na praia, com tanto amor com tanta vida
Com tanto amor, com tanta vida loco, Che boludo que me escribís com esse sorriso assim tão lindo assim tão ternamente tão falsamente infantil faz de novo faz, faz de novo para eu te fotografar na cozinha pela última e derradeira vez I am memorizing this room, assim as suas pernas assim as suas mãos tão destras cozinhando assim a tua superioridade eu me prostro diante de ti, eu me prostro diante de ti e vou rastejando até bem depois da ponte voltando assim com a decência entalada na garganta voltando assim até Salvador, até bem depois daquela serra, daquela avenida.
Os dias de tal prosa folgada estão contados, caro amigo, eu vou trabalhar com a questão – jargão de historiador da uff, eu vou trabalhar com a questão dos conceitos, com a idéia de blablablalidade com a idéia de que eu to com uma vontade louca de resetar tudinho e começar assim de novo nos teus olhos o trabalho que o Criador deixou de lado.
Mas de pronto testarei a sua paciência
Leed aquele livro daquela que tem C. no nome.
Sem repetir. Que você acha?

sexta-feira, outubro 08, 2010

Fading

Gostava mesmo era das tardes em que você se fantasiava de rainha sem reino, chorando as mágoas pelo apartamento, cinismo inconsolável distribuía gargalhadas depois que me assustavam. E eu ao teu lado, na pequenez do meu chá que sorvia cabisbaixo sentia que uma distância estranha, sem nome ainda, crescia entre nós. Era pressentimento desses de pesar na barriga, pesar assim fundo chegando a me fazer sentir de alguma maneira mais apaixonado como qualquer enamorado se enamora por um ser que se esvai. O fading imbatível ressaltava as suas cores, os seus traços e os seus gestos mais secretos que da distância melhor se percebia.


Eu acho que eu tomava chá demais na minha indiferença, nos sábados insípidos em que oferecia ao meu amor o meu ser tão apático e incompreendido. Recuperava assim espécies de chamas antigas, temores de apaixonamentos esquecidos no fundo do baú de músicas esquecidas que afloravam de maneira violenta já logo de manhã. Como se ao tornarmos estranhos um para o outro nos permitiamos o leve e doce apaixonamento.


Ingenuidade minha pensar que tudo aquilo era um mero paradoxo, uma contradição ou algo parecido. Comemorava então os avanços de nossas separações, os primeiros beijos no rosto, os cômodos separados, amigos, planos e gostos. Nos admirávamos assim de longe e melhor nos entendíamos. O dia então que de casa saí foi considerado grande avanço, fase séria de uma relação, suposta estabilidade sonhada. Por quase duas décadas nossa relação esteve assim indo de vento e popa no desconhecido, até que a crise começou num fim de semana no mar, o vento nos seus cabelos encontro casual em baixo de uma amendoeira, sorriso envergonhado num copo de cerveja cumplicidade resgatadas em canções comuns de um antigamente muito antigo como quem olha pela primeira vez o sol a se pôr e diz assim baixinho um segundo eu te amo mais jovem e mais bobo eu me resignei e dei por finda nossa relação, oh a dor que me consumia o peito, oh a dor, não sei como me recuperarei disso, desde então os meus dias tem sido assim de suspiros chorados e cada dia mais envergonhados, de sonhar com o segundo amor, de pegar na sua mão como adolescente de primeira hora, pobre menino preso em tuas armadilhas.

sábado, setembro 04, 2010

Platonismo descomplicado

"O centro do amor
nem sempre coincide
com o centro da vida.

Ambos
se buscam então
como dois animais perdidos.
Mas quase nunca se encontram,
porque é outra a chave da coincidência:
nascer juntos.

Nascer juntos,
como deviam nascer e morrer
todos os amantes."

(Roberto Juarroz)

sábado, agosto 28, 2010

Carta para Charlotte que virou poema.

Vagabunda, tu bem sabias que não era pra ser assim, tu bem sabias que o meu sonho era outro e que tudo, tudo o que eu tinha feito tinha a única finalidade de te fazer feliz. Ah, minha dor, como é grande a minha dor, atemporal, feia e absurda. Que ficção o quê, ficção é o caralho, caralho esse que você não tem para se fuder assim bem fundo, sua vadia de merda. Verme infecundo, já limpei a casa toda, joguei fora a sua toalha, seus bibelôs, seu feng-shui de quinta que atolava a minha pobre sala. Troquei fechadura, queimei incenso e rasguei foto. Não direi que sou livre pois agora essas paredes me oprimem, pois agora a angústia das cinco horas da tarde, da tarde que cai, inexorável me deixa assim completamente nua, completamente eu, presa ao meu mais puro de mim, bobinha, tola, abrindo a geladeira, acreditando em essências, chorando com livrinhos de figuras de animaizinhos dormindo, ah por favor, deixe as rimas para mais tardes que carta de amor eu já não consigo mais escrever e não vem com isso não, não vem com isso não, não vem me enfiando a sua piedade goela abaixo meses depois batendo no meu apartamento, tatuagem nova, óculos escuros, novo corte de cabelo e um novo amor na boca, não vem não que eu sou passional, assassina, tenho raiva, ódio e ojeriza, minha querida, indiferença é para os fracos, há paixão aqui nesse sangue, quebro barraco, boto fogo e bato mesmo, bato assim lá no fundo. Não me apareça nunca mais com a sua cara lavada de ser angelical, tenho eu olho mágico pra esquadrinhar a tua espera no batente da porta, no teu suor tímido e ansioso de janeiros sem brisa. Rábica, não faço a linha da megera domada.

Abro a porta fingindo tempo passado, convido pra entrar, disquinho maneiro na vitrola, bebidinha e conversas no sofá


ofídica, rondo o ninho, espero o seu sono


felina mio quieta


canina marco território


humana, copiosamente humana,


te escrevo sonetos, rimas perfeitas, chineses vasos em higiênicos papéis


que limparão de uma vez por toda a sua consciência.


Boba.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Carta de um outro tempo

Querida amiga, mentirosa, safada e cretina

Estou aqui, tão bossanova me oferecendo em manhã de muito azul, biquininho preferido, tanga indiana, te telefonando pedindo assim manhã acompanhada que não cansamos de tricotar juntas. Esperava assim, desleixada e largada no banco do lado de fora e juntava bracinhos e sorrisos na brisa fresca de antes das dez de manhã.

E o pretérito tão imperfeito daqueles dias muito me marcaram. Não é por estar agora, passadas as onze horas, indefesa, destruída e acabada que eu te escrevo.

A angústia da sua caixa postal me mata.

Espero retorno. Hoje não tem sol.

Beijos.

sexta-feira, agosto 20, 2010

ternura envergonhada

Sexta a noite meu bem.

Quero você assim, como quem se prepara para um sacrifício.

Quero banhos demorados onde a sua sabedoria ministra os mais misteriosos óleos

que ungem o seu mais íntimo ser.

Maquiagens que escondem antigos rostos de antigas canções

declamada em batons rubros de fatais eu te amos.

essências secretas de lembranças desorientadoras que ficam no ar

de nucas desnudas em pressas dissimuladas sorrisos enigmáticos que sobem no carro

até você me oferecer assim de bandeja nas últimas taças do jantar um olhar desconcertado

coçando o pescoço decidindo por ficar comigo

para a eternidade toda de uma manhã de sábado

sexta-feira, agosto 13, 2010

Ela partiu

Você.


Retrospective Analysis


The speaker looks back at his past. Ancorado no presente, espiava assim o passado, explicando atônito e perplexo o presente perfeito.


Uma senhora, elegante, madura, exalando aquela autoridade rainha de diva imersa na decadência, atriz anos 30 na solidão de uns 60 obtusos e superficiais. Decadência, ingrediente obrigatório para a sua chegada. Mesa de bar, anéis quadrados, jóias exuberantes, tacinha de vinho encara o interlocutor e o prepara com os olhos - olhos que parecem anunciar risos e prantos - para o que vai dizer:


I have met lots of people.


E eu todo apoiado no discurso, na narração, observo qual anão montado na costa de um gigante as mais longes montanhas, os mais antigos camelos passando pelos mais ínfimos buracos de tantas e tantas agulhas, negros vales e verdes campos de sua vida.


Você não sabe o quanto eu caminhei para chegar até aqui onde eu cheguei dizia ela num tom de voz doce, macio e amargo e eu ouvia agora absorto, presa insignificante presa na teia daquela aranha tipo Ariadne, louca, soltando assim os seus fios por aí, os seus perfumes mais baratos, e os seus sorrisos safados.


Olhe, olhe o que amor fez de nossas vidas.



terça-feira, agosto 10, 2010

love to ease my mind



ah, eu queria mesmo um climinha assim chillout, flertando com o conforto, cozy place do coração mais sincero, era eu a desenhar languidamente as ruas de uma cidade distante se atrevendo a chegar assim na beira do mar, insolente, flertava com o perigo, flertava com a loucura pelas suas calçadas.

Agora que tinha Bia ao meu lado, ouvindo o meu depoimento eu dava pra ficar assim

feliz sem explicação

sexta-feira, junho 18, 2010

São Domingos Blues

bafo, gente, ela toda entregue assim no boitatá como quem não toma nada só um pouquinho de amor só um pouquinho de alegria para enfeitar o seu dia ou a sua manhã que ela queria para sempre bela já que ela era aquela mesma que ficava do lado de fora do restaurante entre um cigarro e outro confabulando histórias imagináveis e realizáveis de amores perdidos e achados entre lençóis sempre novos e sempre velhos sendo que dizia ela noite mais quente que teve foi quando esteve ao lado de seu querido e por nenhum momento o tocou a não ser com seus olhos de verdade que por longas horas esquadrinharam assim a alma de seu amigo amante homem para sempre.

Amante homem para sempre diz assim com lábios de saudade amassando o último cigarro e perdendo o seu olhar no horizonte da baía de Guanabara. Com muita classe tira o sapato alto e pisa na areia assim como íntima pescadora distante do ofício por razões mesquinhas.

Apontava então desesperada todas as luzes da baía, paisagens distantes, cantos escuros e declamava então pedaços de poemas e sem sentidos e sambas que pensava antigos.

Um lindo retratinho de felicidade, de derrapada assim em curva dos trinta quando a minha felicidade se marcava pelo compasso dos sábados pela manhã quando a casa já se enchia de flor e você dizia querer cozinhar para mim, para mim mulher tão boa, cara de amante, dançava para ti no que a gente chamava de minha casa e a noite era um prato cheio que a gente deixava para mais tarde e agora por quê? Por quê? Sou a louca das areias dessa praia distante dividindo mágoas de uma baía chorada por lágrimas mesquinhas e verdadeiras, a verdade é tão mesquinha, pensando bem o adjetivo mesquinho tem muitas coisas a nos ensinar, a nós, todos humanos, todos cientes da beleza e da rareza do encontro, do olhar, do sorriso e da vida.

Ah, eu tomo voz mesmo, desbanco narrador, quebro barraco, mato cobra, mostro pau, sou falocêntrica, falocêntrica até o meu último fio de cabelo pois a orgia não tem sentido sem o seu nome ao meu lado sem a sua mão a distância sem as promessas de madrugada

me botaram para ser escriba e fiquei puta, revoltada, saí copiando direitinho a verdade mal humorada por verdade me custar muito caro. Essa noite, eu sou só solidão, que baía que nada, vou de ônibus pra Copa e dou uma de perdida, desolada, desorientada e peço mesa pra uma, canto musica de amor, escrevo poeminha e vou dormir assim como quem cochila na missa.

segunda-feira, junho 14, 2010

Dos Macumbões Sinceros dessa Vida - Parte I

Cheguei em casa já tacando um macumbão daqueles no rádio pra animar assim tirar de dentro a minha vontade de vida tão guardada com cheiro de mofo no desconsolo das tardes de quinta-feira. Há uma altura do ano em que sou tragada completamente por ele e começo fazer as coisas assim automaticamente com pequenos e raros espaços de consciência, lucidez e desespero. Este por exemplo é um desses lapsos, talvez lindo, talvez ajudado por um copinho de whisky barato e uma noite solitária em que fico assim só em casa ouvindo musiquinhas interessantes.

Pois foi mais ou menos assim: eu tinha chegado em casa suadérrima pois você sabe né, final de novembro é aquele desespero horrível, chego toda quente, elevador, espera, repetições vou jogando a roupa pra lá e inventando telefonemas ventilador ligado. Aliás, o ventilador nessa época do ano me dá uma nostalgia doida, uma coisa estranha, uma vontade de usar a palavra circulador ao invés de ventilador e acompanhar aquela melancolia da capinha que fica mexendo mais devagar hipnotizando o meu sono. Pior que isso é papel pardo na janela com tarde abafada... Aí é foda, não dá nem pra tentar bancar a poeta obscura, a poeta sem grana, aquela que vive de seu trabalho intelectual, fico toda suada que termino indo pro chuveiro ou saindo pra rua mesmo, vontade mesmo de estar com alguém tempo nem me sobra pra auto-satisfação ou lamentação ao telefone com as amigas.

Sou realmente uma viada mesmo, pois vou deixando assim promessa na mesa de todo mundo, noite de chopp, tudo isso, mas quando vejo já passou bem depois do tempo e sou só eu comigo mesma e aí meu irmão, é um desespero que eu saio que nem uma zumbi rondando o bairro fingindo casualidades encontrando colegas de longe, acenando e distribuindo coincidências. E se numa dessas minhas saídas encontro quem me dê carinho ou que minta por mais de 20 minutinhos de verdade no ouvido já vou falando da beleza da vida, de disquinho maneiro, de você precisa escutar isso e já vou pegando na mão e olhando pro olho e jurando eterno amor, que fazer, que fazer

Pra depois no dia seguinte chamar o espelho de filho da puta, de cúmplice da minha sorte, da minha sina, pois o nome daquele que roubou meu coração ta guardado nas mais lindas bocas dos sapos e eu fico assim, sendo cada vez mais pudica bancando a indecente, sonhando com as caretices mais lindas, ajeitando o papel pardo corrigindo provas e inventando trabalhos para se fazer ou planos, dietas, simpatias e encontros, guardando em gavetinhas secretas fotinhos e cartas de amor e cheiro de guardado e a tristeza do amarelado e eu cada vez mais trancada no papel pardo cada vez mais escuro cada vez mais abafado quando abro a janela é pra respirar o ar da Mariz e Barros em dia de semana e sonhar com finais de semana com vida além da Conde de Bonfim, praias e praias, ponte, Ponta Negra, Cabo Frio, prainha sincera, cervejinha na praia o mesmo peixinho, celulite sincera e fofocas a mil de fulana que tá com fulano que pegou cicrano e por aí vai e vai e vai.

E eu me desesperando, contendo arrependimento, medo de tomar o caminho de volta, cruzar a ponte e voltar para minha casa, para meu reino, para meu castelo quando chego domingo de noite já sou uma exilada voltando a minha pátria, com ansiedades a mil, telefonemas de domingo de noite, visitas esporádicas, livros intermináveis e choros abafados na madrugada indecente que já tira sua máscara e me mostra a segunda feira nua e crua se insinuando para mim, pobre tijucana, eterna tijucana para sempre com dívidas eternas para sempre passeando meus boleros e meus temas prediletos naquela rua que vai dar no Aterro, naquela rua lá bem longe, lá pertinho da Igreja, da Nossa Senhora da minha Glória prometida desde o início de tudo

Desde o início de tudo

sexta-feira, junho 11, 2010

Lembra?

Lembra que a lua ficava tipo olhando e a gente calava a boca dela com os faróis dos carros mais acesos e você se atrevia e se acendia assim que no escuro eu via teu desejo tão você?

Seu desejo na minha mão se ardendo e eu quase num transe religioso agradecendo a qualquer deus a existência de gente assim existindo assim comendo de bandeja a noite de verão olhando a nossa cidade tão linda e tão pura.

Você piscava o olho e eu olhava o seu olho tão lindo tão negro tão fundo como eu me orgulhava de tuas olheiras da gente ficar assim acordado até bem mais tarde

E nas sextas feiras você já ficava em casa inventando nudez até a gente decidir um barzinho qualquer para desfilar nossa cara de pau cada dia mais linda

Até os seus olhares para a menina misteriosa me eram belos e não tinha espaço pra dúvida ou ciúme, pois me catapultava no seu olho e ia assim na mesa daquela que de tomara que já caiu há tempos a alça daquela decência ménage a trois bangalou três vezes sem sair de dentro do engenho onde a gente promovia festinhas maneiras

Você se lembra amor?

Se lembra?


quarta-feira, junho 02, 2010

sem antes nem depois

é que no final ele sempre ficava bem mesmo depois de todo o desastre torre desabada em segundos...

imagens reais, situações verídicas aconselham meu ser afoito a seguir assim escrevendo redação pela linguística não pela gramática. tudo é uma questão, tens que ver para quem tu vais ler isso.

Dizia o ser afoito enquanto cozinhava o sábado a tarde, dizia ele preparar comida nova, dizia ele arriscar toda sua vida no azeite, dando beijinhos assim entre sais e pimentas, arriscando assim juras de amor em pápricas e alcaparras.

Não. Não havia ser afoito. Ao longe se ouvia os acordes inconfundíveis de cama e mesa canção imortalizada na voz do já finado Agepê dizia a minha vó ser este um cantor lá do século passado, dizia minha vó ser ele uma beleza rara, voz e sorriso só cantando o amor.

O sábado a tarde, sabia ele, o meu amante, operar com destreza e carinho todo o perigo, toda a leveza das seis e vinte e poucos de uma tarde de sábado, oh que desconsolo, oh que desconsolo, o meu sonho burguês derradeiro para mim, sorriso colgate ostentado nas oito horas de manhã de domingo enquanto lá fora o mundo era outra coisa e a gente sim estava pronto para mais esse desafio.

O meu ser afoito perto da torre desabada em segundos.


quarta-feira, maio 26, 2010

Remédio Anti-Proustiano

Ah meu querido. Não me digas isso assim de supetão que o que se enche de alegria é a minha casa ou o que resta dela, ou o que dela ficou para mim. Sabe, agora que faz sábado despreocupado eu me apresso em descer por aqueles mesmos corredores onde a saudade já é domada e o corrimão gelado é promessa de atrevimento, de vento da noite me chamando para a resposta que sei desnecessária.
Mas então, te vejo assim em forma de email, corpo do texto, atrevido, tempo passado, interesse, como vai você eu preciso saber da sua vida, etc... E eu de pijamas, fingindo solidão em minha úmida casa, carpete, gato e cheiro de vida. Eu, vitamina mais que pronta, banana escurecida, cigarros e descompromissos, via então na minha caixa de emails as letras que compunham o seu nome, letras que mesmo juntas ou separadas me causam certo fascínio.

Uso o verbo no presente porque sim, pois ainda me causa um prazer estético em ver o seu nome, bem pudera eu ter escrito no pretérito imperfeito e em tantos outros pretéritos, mas isso é literatura querido, perfeito ou imperfeito tanto faz e se deixo a realidade entrar no texto é para nada mais nada menos que subjugá-la, que calar a sua boca, calar o seu grito assim por um instante. E também porque, coitada, pobre realidade, faminta de sonhos, de canções e de lembranças, precisa também entrar em cena, vestir sua máscara, dançar a sua dança e cantar o seu canto.

Acho que é o tempo. Sim. O tempo. Grande influência. A umidade relativa do ar tudo isso. O tempo fotografa, fotografa muito bem, e quando mostra assim a mesma foto, a vontade do cíclico, do outono que sempre vem, tudo isso, tudo isso nos confunde e nos põe assim por alguns minutos, horas ou dias habitando os diversos mundos das diversas fotos que o tempo tirou.

Daí eu me lembrei do início da primavera e como isso era um espetáculo a parte, e de como as árvores se enchiam de verde, de como os dias longos e preguiçosos e o calor insosso nos enchia de vida prometida e vontade de andar mais e mais.

É que já faz muita noite agora. Já são passadas as duas da manhã e tenho as luzes apagadas, friozinho sem vento, musiquinha intimista. Um pouco diferente quando daquela vez em que o seu email me chegou e fiquei assim hesitando abrir ou não o seu email com os seus nomes, com as suas letras, aposto que com o que já escrevi até agora posso construir o teu nome, aposto que ele já se esconde por essas linhas, salta em diferentes parágrafos, escorrega em inusitados ditongos e encontros vocálicos, para ficar assim, escondidinho na perversidade do texto.

Na verdade abri email fóssil como quem abre carta que esqueceu de queimar em noite de purgação. Abri o email ainda lá, preso pelo tempo, sem cheiro de velho nem perfume. Somente o email, arquivo a uma tecla do delete, frio, impassível, branco e luminoso. Mas, que ternura! Que ternura. Lembrei de um ônibus apressado e de uma noite perdida no tempo.

Ah, como eu não queria o tempo, como eu não queria a memória, como queria antídoto, solução anti proustiana de escrever para o futuro de se escrever para o presente que nunca viu passado algum que não lembra que não dói memória nenhuma, seria sim, um mundo sem músicas repetidas, sem replays, refrões, novas e sempre novas frases musicais, letras e palavras usadas pela primeira e última vez, última e derradeira vez, ó babel, ó símbolos sagrados, ó paraíso.

Penso pausa para conversa na cozinha, o texto sem vergonha, saindo assim naturalmente como sai o ar que respiramos.

Queimo então decididamente tal email, deleto-o para o limbo cibernético onde textos e ideias se desfazem no ar e ficam assim a vagar pelo vento, pelas manhãs e pelos dias azuis.

Uma mentira. Como eu e você.

domingo, maio 16, 2010

Para um macaquinho


Ô macaquinho, tão pequenininho.

Que tenho eu para te dizer?

Que tenho eu para te cantar?

Ó pingo de gente,

o lance está em deixar a porta aberta,

o aberto, o indistinto, o comum

Darwin, o nosso pastor, foi só o começo

Ó natureza,

espere um dia em que a linguagem se fará assim

matéria esculpida, em gesto, linhas, e dedos

cansada de fabricar humanidades

espero o dia meu querido

em que os rabos nascerão

e os pelos em abundância

cobrindo nossos braços desproporcionais

testemunharão arrepiados

a abertura das portas do reino dos céus

sábado, maio 01, 2010

Terras distantes e estrangeiras

Sábado, primeiro de maio de dois mil e dez

terras distantes e estrangeiras




Talvez os melhores tempos atravessados sobre a terra... Ah, a contemporaneidade, ah palavra vã, ah aquele que discorre a sua filosofia em qualquer cantinho de qualquer lugar.
Eu escrevo sentado aqui dessa terra calma e tranqüila onde o outono já se anuncia pouco a pouco mostrando a sua cara e esfriando qualquer animação minha que tenha a ver com banho nas águas essas de Oxum gringa
Oxum gringa aqui que se veste diferente mas fala talvez pela mesma vogal a mesma língua que São Jorge, São Jorge este que tinha entrado em conluio com São Sebastião e tinha me prometido meses de felicidades eternas e duradouras em cantinho informal da cidade
Mas não estou no Rio de Janeiro e minhas lembranças de lá doem mais quando já faz novembro e o calor é de matar e aqui a solidão dessas duas margens me deixa assim entorpecido me lembrando de tantas outras duas margens
Quando da vez em que apontei horizonte lá no fundo de perder a vista e disse que lá há o outro lado e cantei para mim baixinho que também havia o redentor que lindo
Ao ler então o Rosa e a sua terceira margem fundi a minha cuca e tive vontade de perguntar sobre tudo aquilo que me tirava a calma
Aí fiz análise por um tempo e descobri que sim, isso quer dizer algo mais distante e mais profundo quando um dia
Eu ainda em terras estrangeiras fiquei a gaguejar de frente do meu professor que me ouvia interessado a minha apresentação e minhas idéias sobre os Fragmentos do Barthes
Disse a ele que a melhor forma de falar sobre o livro não é cair em análises ou considerações a respeito e sim juntamente com ele afirmar o discurso do enamorado, suspirando na frente do professor suspirão sincero e bonito e ouvindo dele aprovação da minha idéia que se queria original
Mas não o lance era entregar-se de corpo e alma enquanto havia tempo. Pensar que há muito para se escrever, há muito para se publicar, olhai o exemplo daquele que tinha como sobrenome Soares dizia a voz interior
E então me vestia de armadura para enfrentar o cotidiano e a sua rotina apaixonante ser máquina viver como máquina seguir a vida dessa forma permitindo algumas vezes por mês apaixonar-me com canção, peça de teatro e copinhos de cerveja onde então vislumbrava o futuro brilhante a minha frente pretenso Adonis en train de despir-se completamente no leito de minha amargura
Me convenci que o Brasil sim caminhava para uma maior e mais cínica religiosidade inventei passaportes para carimbar pois em terras de senhor sou exilado convicto
Aí vim a ter aqui nessas terras distantes nem Aruanda nem Uruguai e sim areia de praia que não é branca e com muita gente que não sabe de nada
Assim é muito mais fácil país da Cocanha atrevida sonhando com pintangas e com as noites de Salvador onde fui adolescente e poeta chorando de amor após receber a carta que dizia a verdade final antes pudera eu ter queimado como dizia na canção
Não queimei e li até o fim o amor que se dizia findo e com que misto de vontade e ansiedade recebi aquelas lágrimas que batizei com promessa de cachacinha fortuita passando assim pela Graça por Campo Grande descendo a ladeira da Barra para desembocar-me naquele praia do Porto da Barra mesmo onde não tive pudor em sonhar em ser hippie
Lá chorei e enterrei meu coração com promessa futura de visitas intensas
Nem São Jorge é baiano e fala com sotaque de gringo
Nem São Sebastião me mostrou o amor como era pra ser

Leio Ovídio. Como quem espera uma solução. Safo também. Sofro por Abelardo e Heloísa e brinco de Julieta em frente ao espelho.
Momento vai momento vem eu aqui nesse meu exílio penso em escrever carta assim sincera e longa
Então como mulher de Atenas começo a bordar cartinha sincera que depois desbordo em poesias que guardo em muitas caixinhas
Ainda seguirei o exemplo de Ariadne.

Ou então sim, pararei de sofrer, exorcizando e chutando as macumbas de Eros

Nos meus sonhos mais lindos

quinta-feira, abril 22, 2010

DESEJO.

E seu assim de uma vez só confessasse todo o meu desejo nessa tarde de sábado?

Escrevesse assim o seu tamanho, a sua vontade em linhas longas e sofridas?

Ou em palavras quais raios de sol?

Ou em cheiros?

Ou em letras, elas mesmas cínicas, elas mesmas ingênuas, cordeirinhos esperando o fim do mundo?

Meu desejo é do tamanho do mundo.

E a felicidade, essa sim, coadjuvante

Do admirável
Mundo
Teu.

quinta-feira, abril 01, 2010

limonada suíça

Foram os primeiros suspiros da nova estação. Ou quem sabe os últimos gemidos do velho verão. Fato é que a parada se embelezou assim parnasianamente acordou decidido a cambiar de uma vez por toda a direção daquelas cores. É que Aterro visto de Niterói, em dias assim é todo um espetáculo a parte, é muito azul, muito verde, até o verde clarinho na copa de algumas árvores. É tudo antes dos dias lindos, vibe por demais explorada e batida.

Porém tais devaneios não passam de estratégias burras para driblar o texto. O texto assim que me denunciava, que denunciava todo eu trabalhado no proust sem madalenas, sem perfumes de avós, sem cheiro de longe.

É que até o calor é tolerável. E sendo o calor tolerável, sendo a memória assim tão branda, eu posso até dizer que são dias de universalidade, dias do todo perdido, da saudade junto com a pessoa, dias em que o abraço era assim completo.

Materialista imperfeito, caí no conto da carochinha, no meu mundo o corte é profundo. E nem me chamo qualquer nome nem sou rosa como outra.

É que ela, ela toda trabalhada na classe fingia sorver assim limonada suíça do alto da mesa.

Safada e piranha sorvia aquilo como chupava seus amigos.

Puta.

terça-feira, março 16, 2010

vênus na casa 4

segundo a minha amiga, ser de peixes com ascendente em câncer é bafo. lua em câncer então nem se fala. daí ela veio com sinastria boladona, revirando gavetas, desejos e paixões. Fiquei triste e consternado ao notar lá no fundo da gaveta o único signo sozinho, sem lua, sem sol e sem hora. Pensei em vênus mangalando três vezes meu medo mais cínico matando mais um Deus dentro de mim.

quinta-feira, março 11, 2010

Samambaia

As coisas funcionam da seguinte maneira quando a tarde de qualquer domingo se decide pela pretensa introspecção. Não, não há espaço para mediocridade. Não há mediocridade no ócio.

A bela dama que cantava canções de amor. Tão bela. Morreu ela. Coitada.

Deixa eu começar pela samambaia. Deixa eu explicar direitinho o que ela representava. Abundância. Era assim, tão abundante, vistosa e alegre, verdadeira anfitriã da casa denunciando sua presença escandalosa e silenciosa, um exagero de verdes, verde forte, verde claro, verde branco e verde negro. E eu tão tímido... Eu tão tímido esperando as portas se abrirem, segurando firme o presente embrulhado com carinho, ofertando todo o meu ser no beijo do encontro, na sua sala, na sua vida pensei finalmente em catarses e declarações. A samambaia, milenar, sábia, me fitava de longe e ria com esmero de gente velha e sabida que deixa escapar assim aquele fiozinho de juventude bem vivida. Dos primeiros cigarros aos beijos demorados esperei confessar uma vida. Não queria eternidades, estava farto de pequenas eternidades em tardes tão sonhadas. Queria a sua pressa ofertada nua e crua, o seu olhar perdido nas chaves da casa, o som da noite lá fora insinuando para nós a sua música.

terça-feira, março 02, 2010

quinta feira de cinzas

Eu quis guardar para mim o último trago do último cigarro encontrado debaixo da cama. O outono já fazia as honras da casa quando a lembrança daquele carnaval se fazia distante. Ao longe via os restos de sua fantasia intocados desde que daqui partiste como quem vai para a casa ao lado. Eu busco então a mesma paz de antigamente na minha casa mas é inútil. A casa toda me persegue e se mostra indiferente a minha dor a minha saudade. E como monge resignado sigo a dura rotina me escondendo no egoísmo maior da tristeza.
Mas as vezes a felicidade bate assim. Mesquinha. Repentina. Pobre e suja. E eu, desorientado saio assim a escrever as mágoas em momentos de felicidade forte.
Não quis que você fosse embora. Odeio a palavra saudade.
Até o som da batucada é ruim sem você
sem beijo ardente
sem nada.