terça-feira, fevereiro 21, 2012

aurora

vendedor de moedas raras afirma em manhã de carnaval quando é terça feira gorda e o sol já nasce lambendo seis da manhã e você ainda tem a manhã inteirinha pela frente.

rainha das manhãs ela era. quando acordava irradiava luz como se tivesse a resposta para todos os desafios que o dia lhe traria.

quem ousa desbravar a fronteira da aurora da noite que se faz dia leva consigo a chave

que abre caminhos

ensolarados.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

caderno antigo

Abri caderno antigo.

Li o que não devia.
Estava ali, tudo escrito e esquecido e ainda vivo
As palavras, os momentos e as imagens


Que fazer para exorcizar essa poesia?

Que fazer?

sábado, novembro 05, 2011

a mulher escrita





É claro que a chamada literatura confessional é um erro, uma espécie de aberração perversa e sádica. É evidente que o eu não tá com nada, o eu já não é mais como era antigamente. Antigamente eu gostava de ser mulher de 40 anos com vestido vermelho varrendo a casa nas manhãs de sábado. Mas não. Não há o que a linguagem possa dizer quando o texto começa naquela primeira pessoa.



Cria-se fôlego com as ficções e eu escrevo esse texto no bloco de notas, na secura e aridez que é o bloco de notas, o aplicativo mais sincero do computador.


Não há como escrever a primavera não há como escrever a manhã de novembro nem a incidência do sol na minha janela nem os sons da rua.

panela de pressão chic chic chic chic chic se espalhando pela casa.

escrever com a xereca nos exige calma e profundidade. não existe coisa mais fálica do que escrever com o eu. a mulher tava lá toda escrevinhada, escrota na mesa e isso não era legal esse papo da escrita gineceu da escrita óvulo

na nossa era de pós-pornô, pós-queer é preciso afirmar e louvar a escrita trans, aquela escrita camaleônica e masturbativa

Só a escrita trans poderá salvar a literatura confessional e de quebra toda a escrita realista de seu beco sem saída.


Só a escrita trans arrombará os portões da república e assassinará de vez Platão.


sábado, outubro 22, 2011

A mentira de um prenúncio

Que haverá então na mão do poeta quando ele se dedica a escrever?


Há muito tempo já não habita mais em mim o fantasma da poesia

não era assim? justamente assim que a gente tinha decorado antes de partir?


eu na minha singela opinião prefiro pensar em maturação, algo entre a fermentação e a germinação


então ficou combinado assim:

eu tinha que ficar na casa esperando o pessoal de fora chegar.

arrumando as caixas.

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o pássaro de fogo que passou tão rápido disse da linguagem coisas sérias e que tem coisas que a gente não conta.

domingo, junho 19, 2011

esboço do projeto de pesquisa

Fragmentos dos fragmentos. Esboço.

É preciso ir até o fundo.

Um projeto de vida não um projeto de mestrado, doutorado ou coisa que o valha.

Orientador caçador de mim a qualificação não escolhe hora nem data para começar.

A Marrom como objeto de estudo. A Marrom como veículo para a mensagem.

Releitura do "senhor fazei de mim um instrumento de vossa voz". Ela falando por ela mesma os seus fragmentos.

Alcione fragmentada em três tipos ideais que se complementam, contradizem e se explicam.

Ela é una. Uma totalidade só. O que separa as três Alciones é uma lacuna paraláctica. Para melhor vê-las e entendê-las é preciso um exercício constante de crítica.

A crítica.

domingo, fevereiro 13, 2011

Arvorezinha

Era tão legal aquela hora da tarde né? Que os grilinhos ficavam falando no nosso ouvido coisinha boa e a gente ficava tão afetada né? Parecia era duas bichas balançando assim na rede, vendo a tarde cair, ficar cantando que nem bobo olhando o pôr do sol como se não houvesse trabalho nos esperando para depois mais tarde e uma vontade louca de pegar um ônibus e ir com você pra cidade mais próxima, já lá perto daquele lugar que a gente pensava que ia viver, tinha uma sala com chão rachado mas era lindo, uma rachadura mínima naquele piso meio colorido, pedra fria, porta de madeira velha, cheiro de velho em todo lugar de madeira boa, de madeira antiga. E o banheiro então?! Ah, vontade que aquela casa tivesse uma sombra de uma mangueira ou um flamboyant. Já imaginava a casa nas sombras de verão se a árvore fosse de manga ia ter é manga pra todos os lados, suas folhas secas, suco de manga, sacolé de manga, sorvete de manga entupindo o congelador e aquele aroma por toda a casa nos janeiros que dão manga. E um flamboyant? Ah, um flamboyant deixaria cair suas micro folhinhas todas pequenininhas, galinhos finos tronco grosso com limo já. O flamboyant encarnado vermelho vivo, explodindo assim num dezembro só de céu azulado e você debaixo daquele vermelho doido dele olhando pra mim sorrindo sorriso cheio de sacanagem mancomunado com o Flamboyant cúmplice de nossas perversões e tinha que ter miquinhos, sim miquinhos berrando nas manhãs assoviando abrindo boquinhas com filhotinhos nas costas comendo banana que a gente ia botar pra eles banana pretinha banana velhinha que a gente sempre esquecia de comer banana bananinha amassadinha

segunda-feira, novembro 29, 2010

Meu querido

Quando pensei que o tempo se apressou assim e mandou a chuva apagar todas as suas lembranças, um certo arrepio me percorreu a espinha. É que passei os últimos dias a secar as cartas de amor que consegui salvar. Os cadernos de poesia, todos eles guardados, viraram uma massa informe onde cada letra se borrava assim num mistério maior. Daí eu dei pra ir atrás dos sentimentos, das saudades, das louvações mil que existiam. E ao meu redor a dor era mais alta, e pedaços de papel eram nada frente às bocas que se calaram e aos sorrisos que deixaram de sorrir.
Havia então um poema, uma carta de amor, escrita no verso de uma folha impressa com poemas da Florbela Espanca. Quatro poeminhas, quatro sonetos assim bem arrumados, quase rasgados. Ainda se lê os títulos: Alma Perdida, Noite de Saudade, Cinzento e Anoitecer. Quatro. Penso na Florbela enquanto escrevo estas linhas, penso no tempo passando, penso nas folhas que um dia imaginei amarelas, penso na ideia da perda seja ela como for.
Alguém assinava os poemas. Alguém de Passo Fundo. Um autor qualquer, que escreveu um poema apaixonado qualquer. O único que foi salvo, o único que experimentou assim uma segunda chance ao secar no sol de domingo toda a água que o encharcou.
"Penso talvez que o estar contigo é o estar comigo
Que me encontro nos teus olhos
E me perco no teu adeus"
E por aí vai, a gente não escolhe o que a gente deixa para eternidade, a gente inventa, a gente finge que ela existe, a gente deixa passar. O silêncio, meu querido, esse sim é para sempre, esse sim é eloqüente. Quando a terra engoliu tudo não se ouvia nada mais que o silêncio, silêncio de verdade, silêncio sem contrário. E quantas cartas de amor enterradas, e quantas cartas de amor seriam escritas por tantas e tantas mãos que já não escrevem mais, quantos e quantos eu te amos foram assim calados, quantos versos assim jamais escritos e sempre imaginados?
Quantos?

terça-feira, novembro 16, 2010

A prostituta babilônica

Viva a prostituta babilônica engajada na reconstrução de sodoma e gomorra, levantando, sacodindo a poeira varrendo lott pra debaixo do tapete, fazendo a messias, canônica até a raiz da alma, toda trabalhada no apócrifo, escrevendo em latim frases de amor em frontes de anjos recalcados, sobre pedras e montes sinais edificando o seu grito, o seu uivo, o seu outing, ancestralidade divina, vovó de deus, lendo santo agostinho em luxúrias de apartamentos solitários da Barra, meia luz, samambaias, bossinhas, espiritismo light, new age, apocalípse, notícias de israel, triunfando na batalha, zen-budista, santo daime seguindo nenhum deus, neopetencostal que só ela, em línguas estranhas escreve poemas simbolistas em banheiros públicos chorando qual criança, soluços, esperanças de domingo a noite, bíblia gasta, lida, relida, comentada em busca da salvação, a melhor empresária que já existiu, investe em ações, evangelizadoras, consoladoras e avassaladoras.

terça-feira, novembro 09, 2010

Escutemos ao que Angola tem a nos dizer.

Escutava a canção Angola cantada pela Mart'nália enquanto caminhava pela Gavião Peixoto em Niterói. De repente fui acometido por um profundo sentimento de pertença à algo maior que superava qualquer definição de brasileiro, angolano, moçambicano, português. Não quero incorrer naquele papo de que somos todos irmãos numa linda harmonia pois a história nos mostra que as coisas não funcionam assim. Mas sim quero enfatizar essa ideia de pertença. É o mar, o mar que nos une. E que sim, tenho uma ligação com Angola e seu povo, com Luanda, com a sua história. E um compromisso (que poderia dizer político mas é mais que isso) em divulgar em muitos espaços a maravilha das letras de um Luandino, de um Pepetela, Ondjaki, e todos esses escritores desse país. Angola tem muito a nos ensinar. Aos nossos escritores brasileiros. Não há nada mais repugnante como o que conhecemos aqui como Academia Brasileira de Letras. Aquela pompa, aquelas fantasias exageradas e deselegantes, aquele papo de imortal, tudo isso é morto, é contra a criação, exemplifica claramente o elitismo de nossos intelectuais. E vislumbrar um escritor como Pepetela nos faz perceber o quanto os retratos dos imortais na Academia Brasileira de Letras escondem muitos e muitos outros verdadeiros imortais que não precisam de todos esses rituais barrocos e cafonas em nosso país para existirem. Todos os velhos da Academia Brasileira de Letras estão derretendo, suas letras definhando. Enquanto ao ler coisas da união dos escritores angolanos vejo as palavras grávidas, vejo a força de uma vivência que tem muito mas muito a nos ensinar. VIVA A LITERATURA ANGOLANA! VIVA ANGOLA!


quarta-feira, outubro 20, 2010

6 de Agosto en Río

"6 de Agosto en Río"
Ao som de Ternura Antiga
Cyber Machado alberga a minha verdadeira epifania final, talvez aquela escrita ansiada há tempos e há séculos prevendo a sua liberação na noite mais quente de inverno.
Os versos foram abolidos todos e todinhos e vivemos agora o refluxo daquela vaga conservadora daqueles tempos.
Se tudo é uma farsa farei do Rio o meu cenário inicial, recomeçando o meu holocausto imolando todas as minhas agruras que insisto em conjugar na primeira pessoa atrevida que chegou aqui e deu pra falar eu
Aqui, onde o vento faz a curva, aqui nesse largo tão estrangeiro e tão familiar imolarei o meu cordeiro calmamente sem vontade alguma de me prender a escrita automática ou a deixar fluir a hipocrisia e a passividade do meu motor
Tu que viste todas aquelas letras
Tu mermão que te atreveu a ler o teclado e a desorganizar todas as letrinhas
Tu que brincaste levianamente com Ginsberg agora se dá conta agora se dá conta de que todos os pretos velhos mentiam quando diziam a liberdade que serás também que serás tão bela que serás tão linda
Tu que zombaste da frase es corto pero feliz tu que zombaste da frase final que pronunciaste em teu francês miojônico Aime moi moins, mais aime moi plus longtemps, enrolando a língua beijinho, beijinho tchau, tchau
E agora que fará você sem as suas lindas mais lindas calles canções que te encantam que te cantam que te fazem que te levam assim sem cessar o teu pasaje a tua passagem São Sebastião eternamente flechado na Avellaneda em tarde de fim de maio triste e desolado se eu soubesse não teria sido dessa forma seguir, cruzar a Rio de Janeiro todinha, pois amor, pois amor em Boedo enterrei meu coração e o ofertei a princesa final que da janela chorava as suas lágrimas para mim
E eu as recolhia pouco a pouco sonhando em voltar a gostar de ler com o mesmo tesão de sempre a Clarice Lispector que sentava inquisitoriamente no divã e te observava e te fitava de longe
Deus, se há chance, se há oportunidade, você vai deixar eu tirar o demônio do meu corpo já que estou assim tão distante da Corrientes 4000, Corrientes 4000,
Ouça sentenças breves, Icaraí is changing, the times they are changing but Icaraí ta indo rápido demais, deixa eu correr e tomar o bonde da história que ta difícil e eu não quero mais soprar o meu amor a conta gotas nem a minha vista falida e mal educada cantando-te as mais lindas canções daquela que se chama Mariana
Sonhar toda a vida ou viver todo o sonho sonhar toda a vida ou viver todo o sono pois encostei aqui na 2 de dezembro staring a multidão que passa aflita nessa hora mais delicada do dia, nessa hora que todo mundo tem amor próprio e que os casais mais se amam, nessa hora que não é nem tarde nem noite nessa hora em que a gente tem uma casa nessa hora em que a culpa de existir é uma mera palavrinha nessa hora em que a gente sente mais seja a dor seja a alegria seja a vontade de estar em casa repousando eternamente nos sons de minha samambaia.
Meu amor vou deixar a casa aberta, já escuto os teus passos procurando a chave e nem penses em entrar assim, em abrir a porta do meu coração antes do Miles Davis engasgar no som da minha decência, você torce para que tudo meu dê certo, amor até que ponto a gente se acostuma até que ponto a gente tem vontade de nós mesmos, até que ponto amor, até que ponto meus olhos não são falsos, até que ponto há tanto amor amor, até que ponto o Jardim Botânico está lejos com suas frutas podres, até que ponto o tempo está mudando amor
Poderia inclusive experimentar religião nesse horário e ir assim rastejando até a Igreja de São Sebastião e dividir espaço com elezinho lá todo flechadinho, tadinho, exibindo o seu corpinho assim na praia, com tanto amor com tanta vida
Com tanto amor, com tanta vida loco, Che boludo que me escribís com esse sorriso assim tão lindo assim tão ternamente tão falsamente infantil faz de novo faz, faz de novo para eu te fotografar na cozinha pela última e derradeira vez I am memorizing this room, assim as suas pernas assim as suas mãos tão destras cozinhando assim a tua superioridade eu me prostro diante de ti, eu me prostro diante de ti e vou rastejando até bem depois da ponte voltando assim com a decência entalada na garganta voltando assim até Salvador, até bem depois daquela serra, daquela avenida.
Os dias de tal prosa folgada estão contados, caro amigo, eu vou trabalhar com a questão – jargão de historiador da uff, eu vou trabalhar com a questão dos conceitos, com a idéia de blablablalidade com a idéia de que eu to com uma vontade louca de resetar tudinho e começar assim de novo nos teus olhos o trabalho que o Criador deixou de lado.
Mas de pronto testarei a sua paciência
Leed aquele livro daquela que tem C. no nome.
Sem repetir. Que você acha?

sexta-feira, outubro 08, 2010

Fading

Gostava mesmo era das tardes em que você se fantasiava de rainha sem reino, chorando as mágoas pelo apartamento, cinismo inconsolável distribuía gargalhadas depois que me assustavam. E eu ao teu lado, na pequenez do meu chá que sorvia cabisbaixo sentia que uma distância estranha, sem nome ainda, crescia entre nós. Era pressentimento desses de pesar na barriga, pesar assim fundo chegando a me fazer sentir de alguma maneira mais apaixonado como qualquer enamorado se enamora por um ser que se esvai. O fading imbatível ressaltava as suas cores, os seus traços e os seus gestos mais secretos que da distância melhor se percebia.


Eu acho que eu tomava chá demais na minha indiferença, nos sábados insípidos em que oferecia ao meu amor o meu ser tão apático e incompreendido. Recuperava assim espécies de chamas antigas, temores de apaixonamentos esquecidos no fundo do baú de músicas esquecidas que afloravam de maneira violenta já logo de manhã. Como se ao tornarmos estranhos um para o outro nos permitiamos o leve e doce apaixonamento.


Ingenuidade minha pensar que tudo aquilo era um mero paradoxo, uma contradição ou algo parecido. Comemorava então os avanços de nossas separações, os primeiros beijos no rosto, os cômodos separados, amigos, planos e gostos. Nos admirávamos assim de longe e melhor nos entendíamos. O dia então que de casa saí foi considerado grande avanço, fase séria de uma relação, suposta estabilidade sonhada. Por quase duas décadas nossa relação esteve assim indo de vento e popa no desconhecido, até que a crise começou num fim de semana no mar, o vento nos seus cabelos encontro casual em baixo de uma amendoeira, sorriso envergonhado num copo de cerveja cumplicidade resgatadas em canções comuns de um antigamente muito antigo como quem olha pela primeira vez o sol a se pôr e diz assim baixinho um segundo eu te amo mais jovem e mais bobo eu me resignei e dei por finda nossa relação, oh a dor que me consumia o peito, oh a dor, não sei como me recuperarei disso, desde então os meus dias tem sido assim de suspiros chorados e cada dia mais envergonhados, de sonhar com o segundo amor, de pegar na sua mão como adolescente de primeira hora, pobre menino preso em tuas armadilhas.

sábado, setembro 04, 2010

Platonismo descomplicado

"O centro do amor
nem sempre coincide
com o centro da vida.

Ambos
se buscam então
como dois animais perdidos.
Mas quase nunca se encontram,
porque é outra a chave da coincidência:
nascer juntos.

Nascer juntos,
como deviam nascer e morrer
todos os amantes."

(Roberto Juarroz)

sábado, agosto 28, 2010

Carta para Charlotte que virou poema.

Vagabunda, tu bem sabias que não era pra ser assim, tu bem sabias que o meu sonho era outro e que tudo, tudo o que eu tinha feito tinha a única finalidade de te fazer feliz. Ah, minha dor, como é grande a minha dor, atemporal, feia e absurda. Que ficção o quê, ficção é o caralho, caralho esse que você não tem para se fuder assim bem fundo, sua vadia de merda. Verme infecundo, já limpei a casa toda, joguei fora a sua toalha, seus bibelôs, seu feng-shui de quinta que atolava a minha pobre sala. Troquei fechadura, queimei incenso e rasguei foto. Não direi que sou livre pois agora essas paredes me oprimem, pois agora a angústia das cinco horas da tarde, da tarde que cai, inexorável me deixa assim completamente nua, completamente eu, presa ao meu mais puro de mim, bobinha, tola, abrindo a geladeira, acreditando em essências, chorando com livrinhos de figuras de animaizinhos dormindo, ah por favor, deixe as rimas para mais tardes que carta de amor eu já não consigo mais escrever e não vem com isso não, não vem com isso não, não vem me enfiando a sua piedade goela abaixo meses depois batendo no meu apartamento, tatuagem nova, óculos escuros, novo corte de cabelo e um novo amor na boca, não vem não que eu sou passional, assassina, tenho raiva, ódio e ojeriza, minha querida, indiferença é para os fracos, há paixão aqui nesse sangue, quebro barraco, boto fogo e bato mesmo, bato assim lá no fundo. Não me apareça nunca mais com a sua cara lavada de ser angelical, tenho eu olho mágico pra esquadrinhar a tua espera no batente da porta, no teu suor tímido e ansioso de janeiros sem brisa. Rábica, não faço a linha da megera domada.

Abro a porta fingindo tempo passado, convido pra entrar, disquinho maneiro na vitrola, bebidinha e conversas no sofá


ofídica, rondo o ninho, espero o seu sono


felina mio quieta


canina marco território


humana, copiosamente humana,


te escrevo sonetos, rimas perfeitas, chineses vasos em higiênicos papéis


que limparão de uma vez por toda a sua consciência.


Boba.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Carta de um outro tempo

Querida amiga, mentirosa, safada e cretina

Estou aqui, tão bossanova me oferecendo em manhã de muito azul, biquininho preferido, tanga indiana, te telefonando pedindo assim manhã acompanhada que não cansamos de tricotar juntas. Esperava assim, desleixada e largada no banco do lado de fora e juntava bracinhos e sorrisos na brisa fresca de antes das dez de manhã.

E o pretérito tão imperfeito daqueles dias muito me marcaram. Não é por estar agora, passadas as onze horas, indefesa, destruída e acabada que eu te escrevo.

A angústia da sua caixa postal me mata.

Espero retorno. Hoje não tem sol.

Beijos.

sexta-feira, agosto 20, 2010

ternura envergonhada

Sexta a noite meu bem.

Quero você assim, como quem se prepara para um sacrifício.

Quero banhos demorados onde a sua sabedoria ministra os mais misteriosos óleos

que ungem o seu mais íntimo ser.

Maquiagens que escondem antigos rostos de antigas canções

declamada em batons rubros de fatais eu te amos.

essências secretas de lembranças desorientadoras que ficam no ar

de nucas desnudas em pressas dissimuladas sorrisos enigmáticos que sobem no carro

até você me oferecer assim de bandeja nas últimas taças do jantar um olhar desconcertado

coçando o pescoço decidindo por ficar comigo

para a eternidade toda de uma manhã de sábado

sexta-feira, agosto 13, 2010

Ela partiu

Você.


Retrospective Analysis


The speaker looks back at his past. Ancorado no presente, espiava assim o passado, explicando atônito e perplexo o presente perfeito.


Uma senhora, elegante, madura, exalando aquela autoridade rainha de diva imersa na decadência, atriz anos 30 na solidão de uns 60 obtusos e superficiais. Decadência, ingrediente obrigatório para a sua chegada. Mesa de bar, anéis quadrados, jóias exuberantes, tacinha de vinho encara o interlocutor e o prepara com os olhos - olhos que parecem anunciar risos e prantos - para o que vai dizer:


I have met lots of people.


E eu todo apoiado no discurso, na narração, observo qual anão montado na costa de um gigante as mais longes montanhas, os mais antigos camelos passando pelos mais ínfimos buracos de tantas e tantas agulhas, negros vales e verdes campos de sua vida.


Você não sabe o quanto eu caminhei para chegar até aqui onde eu cheguei dizia ela num tom de voz doce, macio e amargo e eu ouvia agora absorto, presa insignificante presa na teia daquela aranha tipo Ariadne, louca, soltando assim os seus fios por aí, os seus perfumes mais baratos, e os seus sorrisos safados.


Olhe, olhe o que amor fez de nossas vidas.



terça-feira, agosto 10, 2010

love to ease my mind



ah, eu queria mesmo um climinha assim chillout, flertando com o conforto, cozy place do coração mais sincero, era eu a desenhar languidamente as ruas de uma cidade distante se atrevendo a chegar assim na beira do mar, insolente, flertava com o perigo, flertava com a loucura pelas suas calçadas.

Agora que tinha Bia ao meu lado, ouvindo o meu depoimento eu dava pra ficar assim

feliz sem explicação

sexta-feira, junho 18, 2010

São Domingos Blues

bafo, gente, ela toda entregue assim no boitatá como quem não toma nada só um pouquinho de amor só um pouquinho de alegria para enfeitar o seu dia ou a sua manhã que ela queria para sempre bela já que ela era aquela mesma que ficava do lado de fora do restaurante entre um cigarro e outro confabulando histórias imagináveis e realizáveis de amores perdidos e achados entre lençóis sempre novos e sempre velhos sendo que dizia ela noite mais quente que teve foi quando esteve ao lado de seu querido e por nenhum momento o tocou a não ser com seus olhos de verdade que por longas horas esquadrinharam assim a alma de seu amigo amante homem para sempre.

Amante homem para sempre diz assim com lábios de saudade amassando o último cigarro e perdendo o seu olhar no horizonte da baía de Guanabara. Com muita classe tira o sapato alto e pisa na areia assim como íntima pescadora distante do ofício por razões mesquinhas.

Apontava então desesperada todas as luzes da baía, paisagens distantes, cantos escuros e declamava então pedaços de poemas e sem sentidos e sambas que pensava antigos.

Um lindo retratinho de felicidade, de derrapada assim em curva dos trinta quando a minha felicidade se marcava pelo compasso dos sábados pela manhã quando a casa já se enchia de flor e você dizia querer cozinhar para mim, para mim mulher tão boa, cara de amante, dançava para ti no que a gente chamava de minha casa e a noite era um prato cheio que a gente deixava para mais tarde e agora por quê? Por quê? Sou a louca das areias dessa praia distante dividindo mágoas de uma baía chorada por lágrimas mesquinhas e verdadeiras, a verdade é tão mesquinha, pensando bem o adjetivo mesquinho tem muitas coisas a nos ensinar, a nós, todos humanos, todos cientes da beleza e da rareza do encontro, do olhar, do sorriso e da vida.

Ah, eu tomo voz mesmo, desbanco narrador, quebro barraco, mato cobra, mostro pau, sou falocêntrica, falocêntrica até o meu último fio de cabelo pois a orgia não tem sentido sem o seu nome ao meu lado sem a sua mão a distância sem as promessas de madrugada

me botaram para ser escriba e fiquei puta, revoltada, saí copiando direitinho a verdade mal humorada por verdade me custar muito caro. Essa noite, eu sou só solidão, que baía que nada, vou de ônibus pra Copa e dou uma de perdida, desolada, desorientada e peço mesa pra uma, canto musica de amor, escrevo poeminha e vou dormir assim como quem cochila na missa.

segunda-feira, junho 14, 2010

Dos Macumbões Sinceros dessa Vida - Parte I

Cheguei em casa já tacando um macumbão daqueles no rádio pra animar assim tirar de dentro a minha vontade de vida tão guardada com cheiro de mofo no desconsolo das tardes de quinta-feira. Há uma altura do ano em que sou tragada completamente por ele e começo fazer as coisas assim automaticamente com pequenos e raros espaços de consciência, lucidez e desespero. Este por exemplo é um desses lapsos, talvez lindo, talvez ajudado por um copinho de whisky barato e uma noite solitária em que fico assim só em casa ouvindo musiquinhas interessantes.

Pois foi mais ou menos assim: eu tinha chegado em casa suadérrima pois você sabe né, final de novembro é aquele desespero horrível, chego toda quente, elevador, espera, repetições vou jogando a roupa pra lá e inventando telefonemas ventilador ligado. Aliás, o ventilador nessa época do ano me dá uma nostalgia doida, uma coisa estranha, uma vontade de usar a palavra circulador ao invés de ventilador e acompanhar aquela melancolia da capinha que fica mexendo mais devagar hipnotizando o meu sono. Pior que isso é papel pardo na janela com tarde abafada... Aí é foda, não dá nem pra tentar bancar a poeta obscura, a poeta sem grana, aquela que vive de seu trabalho intelectual, fico toda suada que termino indo pro chuveiro ou saindo pra rua mesmo, vontade mesmo de estar com alguém tempo nem me sobra pra auto-satisfação ou lamentação ao telefone com as amigas.

Sou realmente uma viada mesmo, pois vou deixando assim promessa na mesa de todo mundo, noite de chopp, tudo isso, mas quando vejo já passou bem depois do tempo e sou só eu comigo mesma e aí meu irmão, é um desespero que eu saio que nem uma zumbi rondando o bairro fingindo casualidades encontrando colegas de longe, acenando e distribuindo coincidências. E se numa dessas minhas saídas encontro quem me dê carinho ou que minta por mais de 20 minutinhos de verdade no ouvido já vou falando da beleza da vida, de disquinho maneiro, de você precisa escutar isso e já vou pegando na mão e olhando pro olho e jurando eterno amor, que fazer, que fazer

Pra depois no dia seguinte chamar o espelho de filho da puta, de cúmplice da minha sorte, da minha sina, pois o nome daquele que roubou meu coração ta guardado nas mais lindas bocas dos sapos e eu fico assim, sendo cada vez mais pudica bancando a indecente, sonhando com as caretices mais lindas, ajeitando o papel pardo corrigindo provas e inventando trabalhos para se fazer ou planos, dietas, simpatias e encontros, guardando em gavetinhas secretas fotinhos e cartas de amor e cheiro de guardado e a tristeza do amarelado e eu cada vez mais trancada no papel pardo cada vez mais escuro cada vez mais abafado quando abro a janela é pra respirar o ar da Mariz e Barros em dia de semana e sonhar com finais de semana com vida além da Conde de Bonfim, praias e praias, ponte, Ponta Negra, Cabo Frio, prainha sincera, cervejinha na praia o mesmo peixinho, celulite sincera e fofocas a mil de fulana que tá com fulano que pegou cicrano e por aí vai e vai e vai.

E eu me desesperando, contendo arrependimento, medo de tomar o caminho de volta, cruzar a ponte e voltar para minha casa, para meu reino, para meu castelo quando chego domingo de noite já sou uma exilada voltando a minha pátria, com ansiedades a mil, telefonemas de domingo de noite, visitas esporádicas, livros intermináveis e choros abafados na madrugada indecente que já tira sua máscara e me mostra a segunda feira nua e crua se insinuando para mim, pobre tijucana, eterna tijucana para sempre com dívidas eternas para sempre passeando meus boleros e meus temas prediletos naquela rua que vai dar no Aterro, naquela rua lá bem longe, lá pertinho da Igreja, da Nossa Senhora da minha Glória prometida desde o início de tudo

Desde o início de tudo

sexta-feira, junho 11, 2010

Lembra?

Lembra que a lua ficava tipo olhando e a gente calava a boca dela com os faróis dos carros mais acesos e você se atrevia e se acendia assim que no escuro eu via teu desejo tão você?

Seu desejo na minha mão se ardendo e eu quase num transe religioso agradecendo a qualquer deus a existência de gente assim existindo assim comendo de bandeja a noite de verão olhando a nossa cidade tão linda e tão pura.

Você piscava o olho e eu olhava o seu olho tão lindo tão negro tão fundo como eu me orgulhava de tuas olheiras da gente ficar assim acordado até bem mais tarde

E nas sextas feiras você já ficava em casa inventando nudez até a gente decidir um barzinho qualquer para desfilar nossa cara de pau cada dia mais linda

Até os seus olhares para a menina misteriosa me eram belos e não tinha espaço pra dúvida ou ciúme, pois me catapultava no seu olho e ia assim na mesa daquela que de tomara que já caiu há tempos a alça daquela decência ménage a trois bangalou três vezes sem sair de dentro do engenho onde a gente promovia festinhas maneiras

Você se lembra amor?

Se lembra?