terça-feira, outubro 21, 2014

Lua em escorpião



Retrospective Analysis

Profundidade.
Era cachoeira e eu tava achando que era água de câncer, água fresca. Mas não era água profunda apesar de transparente. A água ainda descia por debaixo da pedra e murmurava muito. Tinha muito bicho que pica perto.

Um deles me picou três vezes e a perna ficou inchada e quente por uns dias.


Deu em nada.
[Achei]

Eu lady lua em câncer levava o ferrão de um escorpião que ronda e me estuda.
Numa caçada.


Que dissimula o outro. 

segunda-feira, agosto 25, 2014

2013


Sonho com você sonhos repetidos.
Consequências de um apaixonamento que se gestou em duas semanas
E já passados os nove, dez, onze meses o aborto é pura questão de estilo.

Perduram em mim:

 a sua imagem
o seu corpo
e o seu toque

em sonhos.
Sonhos reprisados como sessão da tarde vista pela milésima vez.

Ghost.

quinta-feira, junho 26, 2014

2020


Deixo tudo acontecer se você me prometer grandes acasos.


Não vale o mesmo jogo.


No tempo em que eu lia Ana C. como quem lê as páginas amarelas



Lembra delas?



BAPHYPHYNA - É A PRODUTORA DO PÓS-AMOR

quinta-feira, outubro 31, 2013

Tanta água




A sua suspensão pela casa. 

Tanta água que não corre.

Quando o fluxo da água pegou todo mundo de surpresa fez um tsunami no meu apartamento. Vamos lavar isso tudo, água que passa, que banha.
Era verdade que a tristeza era diferente.
Li e estudei exorcismos.
Mas cadê que eu conseguia abrir as comportas da represa?

quinta-feira, outubro 25, 2012

Muito mais que quatro semanas de amor


De quando é preciso dizer para as letras que não elas não dominam a gente. Isso é voz. Isso é consciência. Qualquer tentativa de lapidação do estilo é uma falácia

Da vez que ela veio aqui pra casa depois quase um ano sem vir ela chegou com um biquíni e uma tanga enrolada na bolsa.

Praia dá um tesão.

Fazia tempo que ela não batia na minha porta. Mas eu sabia que um dia ela bateria com tanga ou não, pois ela sempre volta.

Eu não gosto de escada pra subir não, ficar subindo escada, ficar ouvindo alguém subindo a escada, os passos se aproximando. Naquele dia foi assim, os passos iam inundando o apartamento de qualquer coisa que desestabilizava que me tirava do chão e me jogava num alto mar.

Eu fiquei como o naufrago, nem lutei contra a correnteza e as ondas. Engoli água e apressei o mergulho final.

E quando fui atender a porta já era como uma sereia, uma criatura do mar.

É claro que eu ia botar a tanga na bolsa também. Já no final de setembro comia cenoura todo dia e castigava nas manhãs com cenoura e bronze, dourava os meus pelos e fazia tatuagens de rena.

Ela chegou no final de dezembro. Eu já estava marrom, pele, cabelo, corpo, eu estava pronta. E ela? Ela uma Amazona, uma Tuaregue, esguia, solar.


Durou até o final de fevereiro. Não foram só as quatro semanas de amor de Luan e Vanessa. Houve mais do que isso. Talvez o dobro.

Nos entupíamos de salada de fruta, passávamos o dia a base de sol e picolés, frutas e água. Quando o sol se punha a gente comia comida mesmo.

O seu Cenoura e Bronze acabou e eu ainda tinha. Ainda tem, sobrou.

Foda-se. Vou acabar com tudo nesse nosso generoso outono. Vou é catar conchinhas, essa época dá muita, vou fazer artesanato.

Porque não sou obrigada.

 

 

terça-feira, outubro 02, 2012

Para que servem os pobres? Carta aberta a Amir Haddad sobre assinatura em manifesto pró-Paes.

 
 
 
 
 
     Em 2007 trabalhei como assistente de produção do projeto Memória do Tá Na Rua. O projeto tinha dentre os seus objetivos levantar o acervo de tão importante e longevo grupo de teatro de rua do Rio de Janeiro. Tive a oportunidade de conhecer você e as pessoas que trabalhavam no coletivo. Acompanhei muitas coisas interessantes sobre o grupo, a cidade e o país em que vivemos. Dentre outras coisas, digitava manuscritos antigos, do final dos anos 1960 até os dias atuais. A ditadura militar e todo o seu horror estavam presentes nas proibições e nas perseguições ao teatro de rua. No final dos anos 80 com a crise econômica pude entender como o Tá Na Rua problematizou questões que são naturalizadas na realidade capitalista em que vivemos. Nos 5 meses que trabalhei com o projeto de memória pude antes de tudo ter uma dimensão histórica do que o grupo que você fundou representa. A memória estava lá, presente, nos avisando que nunca podemos só olhar para o futuro e que temos um passado a que devemos prestar contas. 5 anos depois, em 2012, fiquei bastante horrorizado ao ver o seu nome no manifesto de apoio a reeleição de Eduardo Paes. É claro que você tem todo o direito de fazer isso, pois afinal vivemos numa democracia. Não quero que muitos digam que estou fazendo patrulha ideológica. O que quero aqui é desabafar, dizer que é necessário que cobremos de você e de todos aqueles que assinaram esse infame manifesto uma explicação. Será que os artistas do Tá Na Rua, que são o espírito, alma e corpo do grupo concordam com o fato de seu diretor assinar o manifesto de reeleição de um candidato que possui uma política de privatização do espaço público e que já tem 52 % de intenção de voto, impossibilitando a oportunidade de um segundo turno para a discussão de muitas questões? Que respeito temos com a memória do tá na rua quando vemos a política do atual prefeito em relação aos moradores de rua, os usuários de drogas e as remoções injustas que pululam por toda a cidade? O que diremos dos acordos com as empresas de transporte, a corrupção, a milícia? Vila Autodromo, Providência, Pico do Santa Marta, aldeia indígena do Maracanã, Morro dos Prazeres todos eles têm o direito de ouvir uma explicação sua Amir. Os ratos e urubus que não largaram a sua fantasia também. Quem mudou aqui? Tem cultura, Cultura e Kultura. Cultura não é só feito de edital, meu chapa. Com muita indignação e com muita revolta pela memória do Tá Na Rua, eu, Henrique Monnerat e muitos outros, vivos ou mortos, cobramos uma explicação do senhor, Amir Haddad. Venha pra rua, antes que a rua se privatize e o seu teatro seja o único, afinando direitinho com o coro dos contentes. E aí, vai dar um trabalhão pra reescrever a história do seu grupo.
 
 

quinta-feira, setembro 27, 2012

Carta aberta aos que assinaram o manifesto a favor da reeleição do Paes.



Carta aberta aos que assinaram o manifesto a favor da reeleição do Paes.



Caros colegas



Eu sou professor e cidadão brasileiro. Assim como muitos ando indignado com o que anda acontecendo. A aprovação automática na rede municipal e estadual é uma realidade velada. Peço encarecidamente que vocês procurem saber mais sobre essa questão, assim como também sobre o que está acontecendo na nossa cidade com as remoções e as tais pacificações que prometem trazer paz para seus cidadãos. Gostaria de perguntar se vocês vivem numa favela, pacificada ou não. Sobre o assunto da cultura gostaria que vocês avaliassem a postura da atual prefeitura em relação ao artista de rua e a organização de uma cultura livre e autônoma. A adesão de vocês a esse manifesto muito me entristeceu e muito me chocou, pois vocês dizem ser da cultura, mas mostram uma insensibilidade tamanha para pensar o tempo histórico de vocês. Gostaria que vocês se explicassem por terem assinado esse manifesto, vocês devem explicações pois são figuras públicas e formadores de opinião. A esse manifesto assinado por vocês eu expresso o meu mais sincero repúdio, pois vocês estão contribuindo para a perpetuação de tudo que está aí. Delta, milícia, coligações sinistras, empresas de transporte. Depois de tudo isso, vocês ainda tem coragem de dizer que Somos um Rio?





sábado, junho 02, 2012

Profeta de mim mesma


Mas quarta-feira está longe querida,eu disse num tom convincente beirando o sarcasmo e a alegria das frases feitas. De cinzas ela não terá nada, fui adiantando, prometendo segurança, avaliando-me da melhor maneira possível.

Quando a saudade vira murmúrio e a lembrança fotografia guardada a gente fica num estágio que vai além do nostálgico, a gente fica assim meio besta, repetindo eterna ladainha cheia de sentido e de terceiras, quartas e quintas intenções.

Olá, como vai?

Menininha esperta, ela acordava todo dia na hora que tinha que acordar feliz


Vendendo minha alma parcelada ao capeta


Houve um tempo


Ao acreditar no demônio mais belo de todos travesti-me com as crenças mais belas e subi ao topo mais alto confessando com minha boca as confissões mais secretas na ponta da língua os segredos mais guardados nas noites mais escuras das dúvidas mais belas.

Ao Deus eu reservei os momentos mais contemplativos, as telas mais lindas entendendo perfeitamente porque não se pode pintar o profeta de qualquer maneira de qualquer cor de qualquer traço.

De mim não esperei nada, dividido entre um Deus e um Diabo que se pintavam com as cores mais pardas e as poesias mais belas.

De você esperei o mundo, esperei assim do seu sorriso o mundo como ele próprio se prometia. Sem nada, sem começo, sem fim e sem meio sem deus sem diabo sem profeta sem nada

esperei tanto que caí assim na crença ingênua e bela sem juízo final do amor que vale por si só.

De espera desesperada o mundo está cheio.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

aurora

vendedor de moedas raras afirma em manhã de carnaval quando é terça feira gorda e o sol já nasce lambendo seis da manhã e você ainda tem a manhã inteirinha pela frente.

rainha das manhãs ela era. quando acordava irradiava luz como se tivesse a resposta para todos os desafios que o dia lhe traria.

quem ousa desbravar a fronteira da aurora da noite que se faz dia leva consigo a chave

que abre caminhos

ensolarados.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

caderno antigo

Abri caderno antigo.

Li o que não devia.
Estava ali, tudo escrito e esquecido e ainda vivo
As palavras, os momentos e as imagens


Que fazer para exorcizar essa poesia?

Que fazer?

sábado, novembro 05, 2011

a mulher escrita





É claro que a chamada literatura confessional é um erro, uma espécie de aberração perversa e sádica. É evidente que o eu não tá com nada, o eu já não é mais como era antigamente. Antigamente eu gostava de ser mulher de 40 anos com vestido vermelho varrendo a casa nas manhãs de sábado. Mas não. Não há o que a linguagem possa dizer quando o texto começa naquela primeira pessoa.



Cria-se fôlego com as ficções e eu escrevo esse texto no bloco de notas, na secura e aridez que é o bloco de notas, o aplicativo mais sincero do computador.


Não há como escrever a primavera não há como escrever a manhã de novembro nem a incidência do sol na minha janela nem os sons da rua.

panela de pressão chic chic chic chic chic se espalhando pela casa.

escrever com a xereca nos exige calma e profundidade. não existe coisa mais fálica do que escrever com o eu. a mulher tava lá toda escrevinhada, escrota na mesa e isso não era legal esse papo da escrita gineceu da escrita óvulo

na nossa era de pós-pornô, pós-queer é preciso afirmar e louvar a escrita trans, aquela escrita camaleônica e masturbativa

Só a escrita trans poderá salvar a literatura confessional e de quebra toda a escrita realista de seu beco sem saída.


Só a escrita trans arrombará os portões da república e assassinará de vez Platão.


sábado, outubro 22, 2011

A mentira de um prenúncio

Que haverá então na mão do poeta quando ele se dedica a escrever?


Há muito tempo já não habita mais em mim o fantasma da poesia

não era assim? justamente assim que a gente tinha decorado antes de partir?


eu na minha singela opinião prefiro pensar em maturação, algo entre a fermentação e a germinação


então ficou combinado assim:

eu tinha que ficar na casa esperando o pessoal de fora chegar.

arrumando as caixas.

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o pássaro de fogo que passou tão rápido disse da linguagem coisas sérias e que tem coisas que a gente não conta.

domingo, junho 19, 2011

esboço do projeto de pesquisa

Fragmentos dos fragmentos. Esboço.

É preciso ir até o fundo.

Um projeto de vida não um projeto de mestrado, doutorado ou coisa que o valha.

Orientador caçador de mim a qualificação não escolhe hora nem data para começar.

A Marrom como objeto de estudo. A Marrom como veículo para a mensagem.

Releitura do "senhor fazei de mim um instrumento de vossa voz". Ela falando por ela mesma os seus fragmentos.

Alcione fragmentada em três tipos ideais que se complementam, contradizem e se explicam.

Ela é una. Uma totalidade só. O que separa as três Alciones é uma lacuna paraláctica. Para melhor vê-las e entendê-las é preciso um exercício constante de crítica.

A crítica.

domingo, fevereiro 13, 2011

Arvorezinha

Era tão legal aquela hora da tarde né? Que os grilinhos ficavam falando no nosso ouvido coisinha boa e a gente ficava tão afetada né? Parecia era duas bichas balançando assim na rede, vendo a tarde cair, ficar cantando que nem bobo olhando o pôr do sol como se não houvesse trabalho nos esperando para depois mais tarde e uma vontade louca de pegar um ônibus e ir com você pra cidade mais próxima, já lá perto daquele lugar que a gente pensava que ia viver, tinha uma sala com chão rachado mas era lindo, uma rachadura mínima naquele piso meio colorido, pedra fria, porta de madeira velha, cheiro de velho em todo lugar de madeira boa, de madeira antiga. E o banheiro então?! Ah, vontade que aquela casa tivesse uma sombra de uma mangueira ou um flamboyant. Já imaginava a casa nas sombras de verão se a árvore fosse de manga ia ter é manga pra todos os lados, suas folhas secas, suco de manga, sacolé de manga, sorvete de manga entupindo o congelador e aquele aroma por toda a casa nos janeiros que dão manga. E um flamboyant? Ah, um flamboyant deixaria cair suas micro folhinhas todas pequenininhas, galinhos finos tronco grosso com limo já. O flamboyant encarnado vermelho vivo, explodindo assim num dezembro só de céu azulado e você debaixo daquele vermelho doido dele olhando pra mim sorrindo sorriso cheio de sacanagem mancomunado com o Flamboyant cúmplice de nossas perversões e tinha que ter miquinhos, sim miquinhos berrando nas manhãs assoviando abrindo boquinhas com filhotinhos nas costas comendo banana que a gente ia botar pra eles banana pretinha banana velhinha que a gente sempre esquecia de comer banana bananinha amassadinha

segunda-feira, novembro 29, 2010

Meu querido

Quando pensei que o tempo se apressou assim e mandou a chuva apagar todas as suas lembranças, um certo arrepio me percorreu a espinha. É que passei os últimos dias a secar as cartas de amor que consegui salvar. Os cadernos de poesia, todos eles guardados, viraram uma massa informe onde cada letra se borrava assim num mistério maior. Daí eu dei pra ir atrás dos sentimentos, das saudades, das louvações mil que existiam. E ao meu redor a dor era mais alta, e pedaços de papel eram nada frente às bocas que se calaram e aos sorrisos que deixaram de sorrir.
Havia então um poema, uma carta de amor, escrita no verso de uma folha impressa com poemas da Florbela Espanca. Quatro poeminhas, quatro sonetos assim bem arrumados, quase rasgados. Ainda se lê os títulos: Alma Perdida, Noite de Saudade, Cinzento e Anoitecer. Quatro. Penso na Florbela enquanto escrevo estas linhas, penso no tempo passando, penso nas folhas que um dia imaginei amarelas, penso na ideia da perda seja ela como for.
Alguém assinava os poemas. Alguém de Passo Fundo. Um autor qualquer, que escreveu um poema apaixonado qualquer. O único que foi salvo, o único que experimentou assim uma segunda chance ao secar no sol de domingo toda a água que o encharcou.
"Penso talvez que o estar contigo é o estar comigo
Que me encontro nos teus olhos
E me perco no teu adeus"
E por aí vai, a gente não escolhe o que a gente deixa para eternidade, a gente inventa, a gente finge que ela existe, a gente deixa passar. O silêncio, meu querido, esse sim é para sempre, esse sim é eloqüente. Quando a terra engoliu tudo não se ouvia nada mais que o silêncio, silêncio de verdade, silêncio sem contrário. E quantas cartas de amor enterradas, e quantas cartas de amor seriam escritas por tantas e tantas mãos que já não escrevem mais, quantos e quantos eu te amos foram assim calados, quantos versos assim jamais escritos e sempre imaginados?
Quantos?

terça-feira, novembro 16, 2010

A prostituta babilônica

Viva a prostituta babilônica engajada na reconstrução de sodoma e gomorra, levantando, sacodindo a poeira varrendo lott pra debaixo do tapete, fazendo a messias, canônica até a raiz da alma, toda trabalhada no apócrifo, escrevendo em latim frases de amor em frontes de anjos recalcados, sobre pedras e montes sinais edificando o seu grito, o seu uivo, o seu outing, ancestralidade divina, vovó de deus, lendo santo agostinho em luxúrias de apartamentos solitários da Barra, meia luz, samambaias, bossinhas, espiritismo light, new age, apocalípse, notícias de israel, triunfando na batalha, zen-budista, santo daime seguindo nenhum deus, neopetencostal que só ela, em línguas estranhas escreve poemas simbolistas em banheiros públicos chorando qual criança, soluços, esperanças de domingo a noite, bíblia gasta, lida, relida, comentada em busca da salvação, a melhor empresária que já existiu, investe em ações, evangelizadoras, consoladoras e avassaladoras.

terça-feira, novembro 09, 2010

Escutemos ao que Angola tem a nos dizer.

Escutava a canção Angola cantada pela Mart'nália enquanto caminhava pela Gavião Peixoto em Niterói. De repente fui acometido por um profundo sentimento de pertença à algo maior que superava qualquer definição de brasileiro, angolano, moçambicano, português. Não quero incorrer naquele papo de que somos todos irmãos numa linda harmonia pois a história nos mostra que as coisas não funcionam assim. Mas sim quero enfatizar essa ideia de pertença. É o mar, o mar que nos une. E que sim, tenho uma ligação com Angola e seu povo, com Luanda, com a sua história. E um compromisso (que poderia dizer político mas é mais que isso) em divulgar em muitos espaços a maravilha das letras de um Luandino, de um Pepetela, Ondjaki, e todos esses escritores desse país. Angola tem muito a nos ensinar. Aos nossos escritores brasileiros. Não há nada mais repugnante como o que conhecemos aqui como Academia Brasileira de Letras. Aquela pompa, aquelas fantasias exageradas e deselegantes, aquele papo de imortal, tudo isso é morto, é contra a criação, exemplifica claramente o elitismo de nossos intelectuais. E vislumbrar um escritor como Pepetela nos faz perceber o quanto os retratos dos imortais na Academia Brasileira de Letras escondem muitos e muitos outros verdadeiros imortais que não precisam de todos esses rituais barrocos e cafonas em nosso país para existirem. Todos os velhos da Academia Brasileira de Letras estão derretendo, suas letras definhando. Enquanto ao ler coisas da união dos escritores angolanos vejo as palavras grávidas, vejo a força de uma vivência que tem muito mas muito a nos ensinar. VIVA A LITERATURA ANGOLANA! VIVA ANGOLA!


quarta-feira, outubro 20, 2010

6 de Agosto en Río

"6 de Agosto en Río"
Ao som de Ternura Antiga
Cyber Machado alberga a minha verdadeira epifania final, talvez aquela escrita ansiada há tempos e há séculos prevendo a sua liberação na noite mais quente de inverno.
Os versos foram abolidos todos e todinhos e vivemos agora o refluxo daquela vaga conservadora daqueles tempos.
Se tudo é uma farsa farei do Rio o meu cenário inicial, recomeçando o meu holocausto imolando todas as minhas agruras que insisto em conjugar na primeira pessoa atrevida que chegou aqui e deu pra falar eu
Aqui, onde o vento faz a curva, aqui nesse largo tão estrangeiro e tão familiar imolarei o meu cordeiro calmamente sem vontade alguma de me prender a escrita automática ou a deixar fluir a hipocrisia e a passividade do meu motor
Tu que viste todas aquelas letras
Tu mermão que te atreveu a ler o teclado e a desorganizar todas as letrinhas
Tu que brincaste levianamente com Ginsberg agora se dá conta agora se dá conta de que todos os pretos velhos mentiam quando diziam a liberdade que serás também que serás tão bela que serás tão linda
Tu que zombaste da frase es corto pero feliz tu que zombaste da frase final que pronunciaste em teu francês miojônico Aime moi moins, mais aime moi plus longtemps, enrolando a língua beijinho, beijinho tchau, tchau
E agora que fará você sem as suas lindas mais lindas calles canções que te encantam que te cantam que te fazem que te levam assim sem cessar o teu pasaje a tua passagem São Sebastião eternamente flechado na Avellaneda em tarde de fim de maio triste e desolado se eu soubesse não teria sido dessa forma seguir, cruzar a Rio de Janeiro todinha, pois amor, pois amor em Boedo enterrei meu coração e o ofertei a princesa final que da janela chorava as suas lágrimas para mim
E eu as recolhia pouco a pouco sonhando em voltar a gostar de ler com o mesmo tesão de sempre a Clarice Lispector que sentava inquisitoriamente no divã e te observava e te fitava de longe
Deus, se há chance, se há oportunidade, você vai deixar eu tirar o demônio do meu corpo já que estou assim tão distante da Corrientes 4000, Corrientes 4000,
Ouça sentenças breves, Icaraí is changing, the times they are changing but Icaraí ta indo rápido demais, deixa eu correr e tomar o bonde da história que ta difícil e eu não quero mais soprar o meu amor a conta gotas nem a minha vista falida e mal educada cantando-te as mais lindas canções daquela que se chama Mariana
Sonhar toda a vida ou viver todo o sonho sonhar toda a vida ou viver todo o sono pois encostei aqui na 2 de dezembro staring a multidão que passa aflita nessa hora mais delicada do dia, nessa hora que todo mundo tem amor próprio e que os casais mais se amam, nessa hora que não é nem tarde nem noite nessa hora em que a gente tem uma casa nessa hora em que a culpa de existir é uma mera palavrinha nessa hora em que a gente sente mais seja a dor seja a alegria seja a vontade de estar em casa repousando eternamente nos sons de minha samambaia.
Meu amor vou deixar a casa aberta, já escuto os teus passos procurando a chave e nem penses em entrar assim, em abrir a porta do meu coração antes do Miles Davis engasgar no som da minha decência, você torce para que tudo meu dê certo, amor até que ponto a gente se acostuma até que ponto a gente tem vontade de nós mesmos, até que ponto amor, até que ponto meus olhos não são falsos, até que ponto há tanto amor amor, até que ponto o Jardim Botânico está lejos com suas frutas podres, até que ponto o tempo está mudando amor
Poderia inclusive experimentar religião nesse horário e ir assim rastejando até a Igreja de São Sebastião e dividir espaço com elezinho lá todo flechadinho, tadinho, exibindo o seu corpinho assim na praia, com tanto amor com tanta vida
Com tanto amor, com tanta vida loco, Che boludo que me escribís com esse sorriso assim tão lindo assim tão ternamente tão falsamente infantil faz de novo faz, faz de novo para eu te fotografar na cozinha pela última e derradeira vez I am memorizing this room, assim as suas pernas assim as suas mãos tão destras cozinhando assim a tua superioridade eu me prostro diante de ti, eu me prostro diante de ti e vou rastejando até bem depois da ponte voltando assim com a decência entalada na garganta voltando assim até Salvador, até bem depois daquela serra, daquela avenida.
Os dias de tal prosa folgada estão contados, caro amigo, eu vou trabalhar com a questão – jargão de historiador da uff, eu vou trabalhar com a questão dos conceitos, com a idéia de blablablalidade com a idéia de que eu to com uma vontade louca de resetar tudinho e começar assim de novo nos teus olhos o trabalho que o Criador deixou de lado.
Mas de pronto testarei a sua paciência
Leed aquele livro daquela que tem C. no nome.
Sem repetir. Que você acha?

sexta-feira, outubro 08, 2010

Fading

Gostava mesmo era das tardes em que você se fantasiava de rainha sem reino, chorando as mágoas pelo apartamento, cinismo inconsolável distribuía gargalhadas depois que me assustavam. E eu ao teu lado, na pequenez do meu chá que sorvia cabisbaixo sentia que uma distância estranha, sem nome ainda, crescia entre nós. Era pressentimento desses de pesar na barriga, pesar assim fundo chegando a me fazer sentir de alguma maneira mais apaixonado como qualquer enamorado se enamora por um ser que se esvai. O fading imbatível ressaltava as suas cores, os seus traços e os seus gestos mais secretos que da distância melhor se percebia.


Eu acho que eu tomava chá demais na minha indiferença, nos sábados insípidos em que oferecia ao meu amor o meu ser tão apático e incompreendido. Recuperava assim espécies de chamas antigas, temores de apaixonamentos esquecidos no fundo do baú de músicas esquecidas que afloravam de maneira violenta já logo de manhã. Como se ao tornarmos estranhos um para o outro nos permitiamos o leve e doce apaixonamento.


Ingenuidade minha pensar que tudo aquilo era um mero paradoxo, uma contradição ou algo parecido. Comemorava então os avanços de nossas separações, os primeiros beijos no rosto, os cômodos separados, amigos, planos e gostos. Nos admirávamos assim de longe e melhor nos entendíamos. O dia então que de casa saí foi considerado grande avanço, fase séria de uma relação, suposta estabilidade sonhada. Por quase duas décadas nossa relação esteve assim indo de vento e popa no desconhecido, até que a crise começou num fim de semana no mar, o vento nos seus cabelos encontro casual em baixo de uma amendoeira, sorriso envergonhado num copo de cerveja cumplicidade resgatadas em canções comuns de um antigamente muito antigo como quem olha pela primeira vez o sol a se pôr e diz assim baixinho um segundo eu te amo mais jovem e mais bobo eu me resignei e dei por finda nossa relação, oh a dor que me consumia o peito, oh a dor, não sei como me recuperarei disso, desde então os meus dias tem sido assim de suspiros chorados e cada dia mais envergonhados, de sonhar com o segundo amor, de pegar na sua mão como adolescente de primeira hora, pobre menino preso em tuas armadilhas.