Vez em quando brinco de apaixonado
Me sento na beira do caminho ouço músicas lindas e românticas e me perco no tempo.
Não abstraio, não faço teorias nem me analiso.
Deixo queimar, deixo o caminho chegar até o fim.
Renego e não confesso
mas é isso o que move tudo.
“mi corazón es un eterno taller de escritura” – José Carlo, Boedo.
domingo, novembro 29, 2009
terça-feira, novembro 24, 2009
Gudans Garam
Tenho fumado Gudangs Garam como quem fuma o mundo. Às vezes acendo o meu quarto em projetos intermináveis e fico a discorrer sobre o tempo empurrando com a barriga apertos de coração. Agora que a minha prosa me sufoca, invade território alheio e muda de general, o meu coração não faz outra coisa que apertar assim. Em tamanha dispersão me encontro, ridicularizando terríveis certezas apegando-me ao que não passa.
Tem sido difícil fazer literatura de maneira que o sol fique em seu próprio lugar. Textos frescos e velhos todos eles já passam da validade quando encontram o papel.
Gosto da deselegância do Gudang. São cigarros indonésios que me transportam ao subúrbio de Bandung onde as pessoas nascem sabendo da verdade que por aqui é puro desconhecimento.
Aprendo ternuras em olhares alheios.
E em sorrisos novos
Que doiram sóis sem literaturas
Tem sido difícil fazer literatura de maneira que o sol fique em seu próprio lugar. Textos frescos e velhos todos eles já passam da validade quando encontram o papel.
Gosto da deselegância do Gudang. São cigarros indonésios que me transportam ao subúrbio de Bandung onde as pessoas nascem sabendo da verdade que por aqui é puro desconhecimento.
Aprendo ternuras em olhares alheios.
E em sorrisos novos
Que doiram sóis sem literaturas
sábado, novembro 21, 2009
Sabat
Seu livro solta folha e meu coração também principalmente nestas tardes assim de sábado desconsoladas irreais cinematográficas onde todo o tempo é uma mentira que me separa de ti tão inalcançável e tão disponível de tão puro
Daí eu dou pra ficar triste e ressabiado, decorar os textos, afundar-me em leituras impróprias e descobrir as melodias que talvez um dia possam vir a te interessar
That’s the way we go living our lives my dear, that’s the way I do my best just to see that life is living and living and living
That’s the way there’s no way to run out, I know, I know, those who had failed in this thing, they are there, they expect for something or a sweet text where you can read in brazilian english that
This is an experience not to be missed.
Daí eu dou pra sair no the book is on the table there is there are no meu coração muito do que Shakespeare já falou sobre o amor, não tem jeito, não tem jeito, língua que não é latina vai ser sempre estrangeira e artificial mas por isso mesmo verdadeira por isso mesmo sincera
Whitman me desconsola horrores quando estou assim sábado a tarde fingindo sono ouvindo disquinho de música estrangeira
Ginsberg então me prova o contrário das letrinhas melonetianas
Oh sweet, have you heard me myself I, have you read about the man I love have you noticed that things are kind of strange on this Saturday?
You gave me birth. E eu serei sempre artificial ao dizer que sim,
Eu te amo.
Daí eu dou pra ficar triste e ressabiado, decorar os textos, afundar-me em leituras impróprias e descobrir as melodias que talvez um dia possam vir a te interessar
That’s the way we go living our lives my dear, that’s the way I do my best just to see that life is living and living and living
That’s the way there’s no way to run out, I know, I know, those who had failed in this thing, they are there, they expect for something or a sweet text where you can read in brazilian english that
This is an experience not to be missed.
Daí eu dou pra sair no the book is on the table there is there are no meu coração muito do que Shakespeare já falou sobre o amor, não tem jeito, não tem jeito, língua que não é latina vai ser sempre estrangeira e artificial mas por isso mesmo verdadeira por isso mesmo sincera
Whitman me desconsola horrores quando estou assim sábado a tarde fingindo sono ouvindo disquinho de música estrangeira
Ginsberg então me prova o contrário das letrinhas melonetianas
Oh sweet, have you heard me myself I, have you read about the man I love have you noticed that things are kind of strange on this Saturday?
You gave me birth. E eu serei sempre artificial ao dizer que sim,
Eu te amo.
sábado, novembro 14, 2009
2009
Cheguei e confessei amores.
A barca incandescente. O centro da minha cidade idem.
Livros. Promessas. Tantas vezes no cartão. Sem juros.
Triste sina essa a das poesias que se escrevem, das palavras que se repetem, se prostituem e se desgastam para dar conta das lembranças também prostituídas.
Sábado de sol e eu na barca ao som das crianças excitadas
A baía é lânguida e tem cara de estrangeira
E tudo tem cheiro de tédio
Força para o primeiro passo, primeiro apito, primeira carta, primeiro dia, primeiro amor.
Lembrança, aqui estou
Dessa vez nu
Entrego o jogo
Confesso tudinho
Purgatório no dia após o besame mucho
Vivo.
A barca incandescente. O centro da minha cidade idem.
Livros. Promessas. Tantas vezes no cartão. Sem juros.
Triste sina essa a das poesias que se escrevem, das palavras que se repetem, se prostituem e se desgastam para dar conta das lembranças também prostituídas.
Sábado de sol e eu na barca ao som das crianças excitadas
A baía é lânguida e tem cara de estrangeira
E tudo tem cheiro de tédio
Força para o primeiro passo, primeiro apito, primeira carta, primeiro dia, primeiro amor.
Lembrança, aqui estou
Dessa vez nu
Entrego o jogo
Confesso tudinho
Purgatório no dia após o besame mucho
Vivo.
quinta-feira, novembro 12, 2009
Como construir uma eternidade duradoura
Cena imaginada: liga-se o rádio, finge-se gravação, exterior de dia estrangeiro, declama-se texto escrito em folha antiga e despudorada:
Deglutindo em tarde estrangeira um espanhol preso e arranhado na garganta, todas aquelas palavras magoadas, aqueles erres e esses enferrujados a poesia saía assim qual texto declamado por Cortazar, pátria ferida, vontade de passados, uma língua encostando-se à outra me causava graça, muita graça ver uma língua fantasiada de outra e escutar o seu sotaque assim tão leve assim tão de fino eu que só me prometi observar seu corpo de longe a sua beleza e nunca tocar no seu amor linda figura que construí para mim...
(olhando para o chão, pausas de mais de 30 segundos)
Mas o seu corpo sem o seu sorriso ainda assim sorria para mim e todo você me inspirava ternura de longe ternura de perto ternura humana de suas mãos levemente embriagadas pelo vinho pelo violão pelo bandoleón e pela voz assim mansa do tango feliz também estrangeiro declamando para ti versos ininteligíveis que insistias em repetir
E eu amando o seu amor desejando o teu desejo guiando-me pelo teu farol ia confirmando, só de longe preenchendo formulários intermináveis de vontade de pegar na tua mão de uma só vez e dizer que a vida era uma só e que o táxi lá fora nos levaria á felicidade prometida do meu quarto em noite fria de calefação ligada muitos livros para não serem abertos e bobagens para serem ditas
E você já botando na rádio bossinha nova, sonzinho barato, achando que sim aquilo era o som propício para a ocasião quando na verdade quem cantava mesmo eram os pingos gelados no lado de fora, melodia essa que precisa do silêncio e de seu toque para acontecer e se eu pudesse te escrever naquele momento te escreveria assim como você é belo, como você é distante, arredio, como você é você, interessantemente você, quanta alegria tão perto da gente, tão perto de tuas costas e de tua maneira alheia de rir...
E eu me conjugava em você eu me definia em ti a primeira e a segunda pessoa o meu verbo agia assim a partir do você, a partir do outro, do eu mentirosamente misturado lá no fundo, da completude incompleta de dois corpos que se pediram e se perderam no caminho sozinho do mistério de dois adeus antecipados, de dois olás, de duas dores que se somam se subtraem e se multiplicam
“saudade is the kind of feeling that I can’t explain” dizia você, falsamente você, carregando no sotaque inglês o cinismo daquela palavra atordoada e clichê que queríamos mais violentada, aberta, consumida, destruída pelas outras línguas.
Daquele quarto daquela noite daquele momento guardo a promessa de vida, a tentativa de eternidade, e o seu sorriso que irradiou toda a madrugada.
Eu, nesse agora estrangeiro, sou exilado do presente, arranho a tua língua, te falo, te declamo e te gaguejo também passando o tempo na janela levando você em boleros que pegam sim o avião e cruzam o atlântico e o canal da mancha repousando eternamente em seus ouvidos em suas costas, em sua mesma velha cidade, em seu mesmo velho outono em seu mesmo velho céu tão sincero
Cena não imaginada; exercício de estilo, poeta ator rasga papel dá play no radinho e estala o dedo nos 4 minutos da canção
“mi corazón es un eterno taller de escritura” – José Carlo, Boedo.
Deglutindo em tarde estrangeira um espanhol preso e arranhado na garganta, todas aquelas palavras magoadas, aqueles erres e esses enferrujados a poesia saía assim qual texto declamado por Cortazar, pátria ferida, vontade de passados, uma língua encostando-se à outra me causava graça, muita graça ver uma língua fantasiada de outra e escutar o seu sotaque assim tão leve assim tão de fino eu que só me prometi observar seu corpo de longe a sua beleza e nunca tocar no seu amor linda figura que construí para mim...
(olhando para o chão, pausas de mais de 30 segundos)
Mas o seu corpo sem o seu sorriso ainda assim sorria para mim e todo você me inspirava ternura de longe ternura de perto ternura humana de suas mãos levemente embriagadas pelo vinho pelo violão pelo bandoleón e pela voz assim mansa do tango feliz também estrangeiro declamando para ti versos ininteligíveis que insistias em repetir
E eu amando o seu amor desejando o teu desejo guiando-me pelo teu farol ia confirmando, só de longe preenchendo formulários intermináveis de vontade de pegar na tua mão de uma só vez e dizer que a vida era uma só e que o táxi lá fora nos levaria á felicidade prometida do meu quarto em noite fria de calefação ligada muitos livros para não serem abertos e bobagens para serem ditas
E você já botando na rádio bossinha nova, sonzinho barato, achando que sim aquilo era o som propício para a ocasião quando na verdade quem cantava mesmo eram os pingos gelados no lado de fora, melodia essa que precisa do silêncio e de seu toque para acontecer e se eu pudesse te escrever naquele momento te escreveria assim como você é belo, como você é distante, arredio, como você é você, interessantemente você, quanta alegria tão perto da gente, tão perto de tuas costas e de tua maneira alheia de rir...
E eu me conjugava em você eu me definia em ti a primeira e a segunda pessoa o meu verbo agia assim a partir do você, a partir do outro, do eu mentirosamente misturado lá no fundo, da completude incompleta de dois corpos que se pediram e se perderam no caminho sozinho do mistério de dois adeus antecipados, de dois olás, de duas dores que se somam se subtraem e se multiplicam
“saudade is the kind of feeling that I can’t explain” dizia você, falsamente você, carregando no sotaque inglês o cinismo daquela palavra atordoada e clichê que queríamos mais violentada, aberta, consumida, destruída pelas outras línguas.
Daquele quarto daquela noite daquele momento guardo a promessa de vida, a tentativa de eternidade, e o seu sorriso que irradiou toda a madrugada.
Eu, nesse agora estrangeiro, sou exilado do presente, arranho a tua língua, te falo, te declamo e te gaguejo também passando o tempo na janela levando você em boleros que pegam sim o avião e cruzam o atlântico e o canal da mancha repousando eternamente em seus ouvidos em suas costas, em sua mesma velha cidade, em seu mesmo velho outono em seu mesmo velho céu tão sincero
Cena não imaginada; exercício de estilo, poeta ator rasga papel dá play no radinho e estala o dedo nos 4 minutos da canção
“mi corazón es un eterno taller de escritura” – José Carlo, Boedo.
segunda-feira, novembro 09, 2009
Letícia
"All night she visited the bars. She wore a hat which she pulled down over her face and, during the course of the entire evening, no one had yet recognized her. She was an anonymous woman with good legs. She was whistled at and propositioned but one glance out of her bleak eyes was quite enough to curb the advances of even the drunkest sailor.
Two o'clock and she was drinking in a bar. She watched a lonely couple dance to the music of the jukebox. She wondered where she was. Probably still on Bourbon Street, but she couldn't tell. All of the bars in the Quarter looked alike to her . . .
But the desired detachment did not come. She was still sober. She decided she would go to another bar - perhaps a change in atmosphere would help her forget, help her to become drunk again." Katherine Everard
Frustraram planos de praia. Frustraram tantos e tantos planos que hoje o domingo ficou assim, egoísta, permissivo, moralista e um pouco católico. Deu angustiazinha tímida lá do longe, sensação de que as coisas estavam estranhas. “Tá estranho né?” Era justamente o que me dizia Letícia. Independente do lugar e da atmosfera era sempre o signo da estranheza que guiava os seus passos. Eu me contentava em concordar, em me fazer confidente das estranhezas dela. Raras vezes discordava de suas frases e ficava assim, egoísta, de longe, curtindo a cumplicidade ferida sabendo que no fundo sim, eu era o primeiro a acreditar na estranheza do ambiente advogada por Letícia.
Ela era uma mulher interessante. Ainda não quero me deliciar no gozo sem volta, no gozo do eco em descrevê-la num lindo passado. Quero sim desnudar Letícia para que vocês a vejam, a partir de suas vivências, de suas experiências de planos realizados e frustrados.
Quando Letícia morou em Buenos Aires, ela arranjou um emprego de lavadora de pratos num restaurante em Palermo. Seu chefe era gente fina, assim como toda a equipe que trabalhava com ela no abafado ambiente da cozinha. Inclusive fumavam baseado adoidado lá dentro, ao meio dos comentários dos bastidores, dos pratos, dos talheres afoitos que não paravam de chegar à pia sempre cheia em que Letícia dispunha seus pensamentos e os analisava concentrada na tarefa de lavá-los. A droga talvez aumentasse essa sensação de missão, essa completude pequena, mas verdadeira, talvez por isso grande e sincera. Essa missão de lavar a louça custe o que custar, esse sentimento de grandeza que algumas tragadas davam ao seu ser e enchiam a sua vida de sentido.
Letícia me confessou isso com tristeza nos olhos. Estávamos no Brasil, num desconsolo de tarde de novembro, daqueles novembros que sabem ser mais quentes e perversos que janeiro. Mesa de bar, sensação de fim de livro, depressões avizinhando, pedimos itaipavas e fumamos cigarros da Indonésia tentando restaurar parte de um passado que foi lindo e que nos maravilhava. Era muito brilho no olho, era muito o tempo passado, a confissão da cumplicidade, das músicas prediletas, das experiências, das angústias e dos planos. “O tempo passando é o que mais dói” disse-me ela depois de algumas cervejas e alguns olhares mais ternos. O silêncio se fez em nossa mesa. Ao fundo pessoas alegres bebiam e trocavam comentários, brincadeiras e diversões. “Ah, a ilusão da cumplicidade dos bêbados!” Pensei eu, rindo a um certo ponto por muitas vezes ter advogado tal cumplicidade para muitos, inclusive para Letícia. Naquela altura de nossas vidas nem isso mais fazia sentido. Era eu, Letícia, a mesa e os outros. Entre mim e ela uma vírgula, um mundo, um universo. Solidão, sem grana para análises e relacionamentos frustrados, temi por mim mesmo. Sem antes pensar em Letícia que agora buscava amenidades e conversava levianamente sobre a novela das oito, olhei para fora do bar e vi o desconsolo das seis horas da tarde. O sol ainda batia na entrada do bar, era impiedoso. Nenhuma pessoa na rua. “Um desconsolo até bonito”, pensei, ao ouvir Letícia.
A nossa cumplicidade se encontrava justamente nesses momentos. Em que um sustentava o dedo e pedia mais outra cerveja ou pedia mais outro cigarro e começava uma história. Não havia sustentação para os nossos momentos monologais. Tinha sim muito brilho no olho para cada história, para cada confirmação, para cada traço do amigo que se reconhecia, para cada surpresa de uma atitude desaprovada. Eu não desaprovava Letícia. Ficava sim pensando muito na vida dela, em como eu fiquei, nos abandonos de ter ficado no Brasil colhendo sentidos em artigos e traduzindo baboseiras enquanto ela ia se aventurar na Argentina, tão pertinha, tão fácil e acessível em seus cartões postais de lugares lindos e deslumbrantes, cotações de peso para o real tentadoras que Letícia se atrevia a me escrever nos postais com convites para apartamentos e noitadas portenhas com muita gente que ela dizia chique. Letícia ficou bastante tempo na Argentina. A gente se correspondia, é claro. Com solavancos, pausas, suspiros, birras e beicinhos. Cartões apaixonados, secos, sábios, era o que não faltava. Eu já tinha tudo em casa. A praça de Maio em seus variados ângulos, o obelisco que achava horroroso, a avenida Corrientes e até um menos badalado do bairro de Boedo onde as duas esquinas se encontravam num tango que ouvia desde pequeno.
Letícia não gostava de tango e me causava graça vê-la agora gostar, forçar um gosto sincero que com o tempo seria mais verdadeiro que o meu.
Não levei Letícia para o aeroporto. Não levei porque não queria e porque queria muito no fundo sim pegar aquele avião com ela. Ela me disse que chorou um pacífico ao entrar no saguão de embarque e ver ao longe a igreja da Penha. Letícia tinha uma queda sincera pelo Rio, pela festa da Penha em que fora uma vez e ficara deslumbrada. E pelos sambinhas que se ofereciam a ela enquanto crescia o seu sorriso, o seu corpo e o seu desejo de vida. Fiquei imaginando Letícia chorando vendo a Igreja da Penha ao longe em dia nublado e feio de julho. A malinha na mão, ouvindo música e escrevendo na sua agendinha poesias ou comentários inúteis. Ao despedir-me dela por telefone falei-lhe sobre a Rayuela do Cortázar e que ela tinha de ler de qualquer maneira, que ela não tinha que temer os clichês, que eles eram belos e preciosos. É claro que adivinhei ternura da Maga em Letícia e talvez com um medo de criar monstros em meu laboratório pedi para que ela mesmo tirasse as suas conclusões lá, lendo aquele livro destruindo assim minha ilusão. Muito tempo depois, ao encontrar-me com ela no bar, esqueci-me de perguntar se ela lera ou não o livro. No final entendi que sim. E que não achara lá aquela coisa.
Letícia é assim. Quando criança quebrava o pau com todos, com os amiguinhos, as amiguinhas, as bonecas e as professoras. Não gostava muito de brincar com outras crianças. Preferia a companhia dos mais velhos, ou então a companhia do jardim, seu universo próprio onde realizava as suas experiências que alimentavam o seu sonho de ser tornar uma famosa cientista.
Não fora uma criança triste. De jeito nenhum. Havia muita alegria na sua solidão, havia um desencontro, um otimismo feio em fase de estirão. Os pais talvez ficassem incomodados com isso. E talvez por isso sua mãe a tratasse de uma maneira diferente. Lá em Maria da Graça, onde morava quando adolescente, Letícia começou a sair de seu jardim e ganhar o mundo que não cabia no seu Rio de Janeiro. Pão de Açucar, Copacabana, Cristo Redentor, tudo isso era meio estrangeiro para ela. Era o Rio que ela vivia na tv, mais verdadeiro que a Dom Hélder Câmara turbulenta e apressada, mais verdadeiro que a Penha e sua igreja. A sua perdição foi ficando cada vez mais no centro e já depois dos 20 voltava poucas vezes para a casa. Dormia no centro, na zona sul, além-ponte e se deixava ficar seduzida pelos novos amigos, pelas suas curiosidades, seus comentários e sua beleza. Quando voltava para Maria da Graça era pra jurar eterno amor, olhar desconsolada o passado, a promessa de vida, chorar com a mãe e com os seus irmãos. Ao sair de casa seu coração se enchia de alegria triste, sentimento que na época não conseguia dar nome e função. Deixava ele parado lá, sentindo, cutucando a cabeça, acalmando-a no mormaço do fim de verão carioca. Gostava de fazer o papel de passageira de ônibus distinguida e independente. Botava óculos escuros e abria o seu romance Júlia displicentemente para chocar a burguesia que ela já nem sabia identificar. Quando se aborrecia com o romance saltava as páginas, fazia observações, marcava, relacionava, citava e modificava passagens. Confessara a um namoradinho que um dia escreveria um romance como Júlia e que sim seria um sucesso e que neguinho nenhum ia falar mal dela.
Letícia deslumbrava os seus namoradinhos.
Tudo isso eu lembrava, conversava e ria com ela naquela mesa de bar, tão irreal, tão triste e melancólica. Tive medo, muito medo. O medo era tanto que quando pedimos a conta senti um peso no estômago, uma aflição, uma tonteira que me deixou assustado. Depois daquela mesa seria cada um por si, com as suas loucuras e seus apartamentos. Fiquei assustado, tentei pedir saideras sem sucesso. Fomos caminhando junto com o sol já baixo. Confessamos amores, alegrias e decepções mais uma vez, e tomamos o caminho para a faculdade onde havíamos nos conhecido. Caminhamos pelo campus relembrando os momentos que nos pareciam distantes e nos provocavam uma certa tristeza alegre, madura e vivida. Letícia estava menstruada naquele dia e precisava ir ao banheiro. Fiquei esperando do lado de fora conversando com ela numa faculdade vazia de sexta a noite, último horário. As raras figuras que apareciam eram calouros, seres perdidos, orientandos vagando com seus sonhos e certezas. De repente fui tomado por um excesso de ternura por todos esses seres admiráveis. Cheguei a chorar escancarando a minha crise para Letícia que ficava me consolando bêbada, à sua maneira linda e admirável. Como ela se punha maternal nesses momentos! Logo ela que desdenhava a maternidade! Fomos ver o luar, pois a lua estava cheia e bonita. Olhamos a paisagem da baía de Guanabara, as árvores e o centro da cidade ao longe. A alguns metros de nós se encerrava um congresso vazio de Filosofia e uma mesa de quitutes variados nos oferecia uma espécie de paraíso na terra. “Ah, a academia...” suspirou apaixonada Letícia agarrando meu braço e me puxando até os quitutes. Comemos horrores. Letícia não conhecia o molho agridoce e ficou extremamente deslumbrada com a mistura do salgado com o doce. “Bem-vinda ao mundo do agridoce” disse-lhe. Notei que ela gostou bastante dessa frase e ficou repetindo para melhor guardá-la na sua cabeça. Isso me emocionou. Comemos muito e saímos de lá satisfeito, barriga cheia, embriaguez leve e pesada de verão passando. Caminhamos até as barcas e zarpamos para o outro lado da baía que estava linda. Passamos pela praça altivos, belos, robustos e bem alimentados. Adiávamos nossa despedida disfarçadamente. Fingíamos não ver os ônibus que passavam.
Mas uma vez temi a sensação de fim de livro, de fim de romance, de penúltimas páginas, onde todo um mundo de possibilidade se encaminha inexoravelmente para a frieza de uma única folha, de um único parágrafo deixando o leitor desconsolado, à deriva, tendo que lidar com o vazio de tudo. Me senti o vazio de tudo e procurei explicar isso a Letícia. Ela pareceu não entender muito. Começávamos a entrar em sintonias diferentes e isso de alguma maneira me assustava e me aliviava. Nos apressamos e decidimos que dessa vez nos despediríamos. Trocamos carinhos, declarações de amor, encontros e desencontros. O ônibus dela chegou primeiro apontando lá praqueles cantos tristes do aterro. O meu chegou tempo depois. Coração pesado, tristeza triste, vontade de dormir, subi no ônibus passei pela roleta e encostei minha cabeça na janela sem forças inclusive para chorar e curtir a minha pieguice.
Two o'clock and she was drinking in a bar. She watched a lonely couple dance to the music of the jukebox. She wondered where she was. Probably still on Bourbon Street, but she couldn't tell. All of the bars in the Quarter looked alike to her . . .
But the desired detachment did not come. She was still sober. She decided she would go to another bar - perhaps a change in atmosphere would help her forget, help her to become drunk again." Katherine Everard
Frustraram planos de praia. Frustraram tantos e tantos planos que hoje o domingo ficou assim, egoísta, permissivo, moralista e um pouco católico. Deu angustiazinha tímida lá do longe, sensação de que as coisas estavam estranhas. “Tá estranho né?” Era justamente o que me dizia Letícia. Independente do lugar e da atmosfera era sempre o signo da estranheza que guiava os seus passos. Eu me contentava em concordar, em me fazer confidente das estranhezas dela. Raras vezes discordava de suas frases e ficava assim, egoísta, de longe, curtindo a cumplicidade ferida sabendo que no fundo sim, eu era o primeiro a acreditar na estranheza do ambiente advogada por Letícia.
Ela era uma mulher interessante. Ainda não quero me deliciar no gozo sem volta, no gozo do eco em descrevê-la num lindo passado. Quero sim desnudar Letícia para que vocês a vejam, a partir de suas vivências, de suas experiências de planos realizados e frustrados.
Quando Letícia morou em Buenos Aires, ela arranjou um emprego de lavadora de pratos num restaurante em Palermo. Seu chefe era gente fina, assim como toda a equipe que trabalhava com ela no abafado ambiente da cozinha. Inclusive fumavam baseado adoidado lá dentro, ao meio dos comentários dos bastidores, dos pratos, dos talheres afoitos que não paravam de chegar à pia sempre cheia em que Letícia dispunha seus pensamentos e os analisava concentrada na tarefa de lavá-los. A droga talvez aumentasse essa sensação de missão, essa completude pequena, mas verdadeira, talvez por isso grande e sincera. Essa missão de lavar a louça custe o que custar, esse sentimento de grandeza que algumas tragadas davam ao seu ser e enchiam a sua vida de sentido.
Letícia me confessou isso com tristeza nos olhos. Estávamos no Brasil, num desconsolo de tarde de novembro, daqueles novembros que sabem ser mais quentes e perversos que janeiro. Mesa de bar, sensação de fim de livro, depressões avizinhando, pedimos itaipavas e fumamos cigarros da Indonésia tentando restaurar parte de um passado que foi lindo e que nos maravilhava. Era muito brilho no olho, era muito o tempo passado, a confissão da cumplicidade, das músicas prediletas, das experiências, das angústias e dos planos. “O tempo passando é o que mais dói” disse-me ela depois de algumas cervejas e alguns olhares mais ternos. O silêncio se fez em nossa mesa. Ao fundo pessoas alegres bebiam e trocavam comentários, brincadeiras e diversões. “Ah, a ilusão da cumplicidade dos bêbados!” Pensei eu, rindo a um certo ponto por muitas vezes ter advogado tal cumplicidade para muitos, inclusive para Letícia. Naquela altura de nossas vidas nem isso mais fazia sentido. Era eu, Letícia, a mesa e os outros. Entre mim e ela uma vírgula, um mundo, um universo. Solidão, sem grana para análises e relacionamentos frustrados, temi por mim mesmo. Sem antes pensar em Letícia que agora buscava amenidades e conversava levianamente sobre a novela das oito, olhei para fora do bar e vi o desconsolo das seis horas da tarde. O sol ainda batia na entrada do bar, era impiedoso. Nenhuma pessoa na rua. “Um desconsolo até bonito”, pensei, ao ouvir Letícia.
A nossa cumplicidade se encontrava justamente nesses momentos. Em que um sustentava o dedo e pedia mais outra cerveja ou pedia mais outro cigarro e começava uma história. Não havia sustentação para os nossos momentos monologais. Tinha sim muito brilho no olho para cada história, para cada confirmação, para cada traço do amigo que se reconhecia, para cada surpresa de uma atitude desaprovada. Eu não desaprovava Letícia. Ficava sim pensando muito na vida dela, em como eu fiquei, nos abandonos de ter ficado no Brasil colhendo sentidos em artigos e traduzindo baboseiras enquanto ela ia se aventurar na Argentina, tão pertinha, tão fácil e acessível em seus cartões postais de lugares lindos e deslumbrantes, cotações de peso para o real tentadoras que Letícia se atrevia a me escrever nos postais com convites para apartamentos e noitadas portenhas com muita gente que ela dizia chique. Letícia ficou bastante tempo na Argentina. A gente se correspondia, é claro. Com solavancos, pausas, suspiros, birras e beicinhos. Cartões apaixonados, secos, sábios, era o que não faltava. Eu já tinha tudo em casa. A praça de Maio em seus variados ângulos, o obelisco que achava horroroso, a avenida Corrientes e até um menos badalado do bairro de Boedo onde as duas esquinas se encontravam num tango que ouvia desde pequeno.
Letícia não gostava de tango e me causava graça vê-la agora gostar, forçar um gosto sincero que com o tempo seria mais verdadeiro que o meu.
Não levei Letícia para o aeroporto. Não levei porque não queria e porque queria muito no fundo sim pegar aquele avião com ela. Ela me disse que chorou um pacífico ao entrar no saguão de embarque e ver ao longe a igreja da Penha. Letícia tinha uma queda sincera pelo Rio, pela festa da Penha em que fora uma vez e ficara deslumbrada. E pelos sambinhas que se ofereciam a ela enquanto crescia o seu sorriso, o seu corpo e o seu desejo de vida. Fiquei imaginando Letícia chorando vendo a Igreja da Penha ao longe em dia nublado e feio de julho. A malinha na mão, ouvindo música e escrevendo na sua agendinha poesias ou comentários inúteis. Ao despedir-me dela por telefone falei-lhe sobre a Rayuela do Cortázar e que ela tinha de ler de qualquer maneira, que ela não tinha que temer os clichês, que eles eram belos e preciosos. É claro que adivinhei ternura da Maga em Letícia e talvez com um medo de criar monstros em meu laboratório pedi para que ela mesmo tirasse as suas conclusões lá, lendo aquele livro destruindo assim minha ilusão. Muito tempo depois, ao encontrar-me com ela no bar, esqueci-me de perguntar se ela lera ou não o livro. No final entendi que sim. E que não achara lá aquela coisa.
Letícia é assim. Quando criança quebrava o pau com todos, com os amiguinhos, as amiguinhas, as bonecas e as professoras. Não gostava muito de brincar com outras crianças. Preferia a companhia dos mais velhos, ou então a companhia do jardim, seu universo próprio onde realizava as suas experiências que alimentavam o seu sonho de ser tornar uma famosa cientista.
Não fora uma criança triste. De jeito nenhum. Havia muita alegria na sua solidão, havia um desencontro, um otimismo feio em fase de estirão. Os pais talvez ficassem incomodados com isso. E talvez por isso sua mãe a tratasse de uma maneira diferente. Lá em Maria da Graça, onde morava quando adolescente, Letícia começou a sair de seu jardim e ganhar o mundo que não cabia no seu Rio de Janeiro. Pão de Açucar, Copacabana, Cristo Redentor, tudo isso era meio estrangeiro para ela. Era o Rio que ela vivia na tv, mais verdadeiro que a Dom Hélder Câmara turbulenta e apressada, mais verdadeiro que a Penha e sua igreja. A sua perdição foi ficando cada vez mais no centro e já depois dos 20 voltava poucas vezes para a casa. Dormia no centro, na zona sul, além-ponte e se deixava ficar seduzida pelos novos amigos, pelas suas curiosidades, seus comentários e sua beleza. Quando voltava para Maria da Graça era pra jurar eterno amor, olhar desconsolada o passado, a promessa de vida, chorar com a mãe e com os seus irmãos. Ao sair de casa seu coração se enchia de alegria triste, sentimento que na época não conseguia dar nome e função. Deixava ele parado lá, sentindo, cutucando a cabeça, acalmando-a no mormaço do fim de verão carioca. Gostava de fazer o papel de passageira de ônibus distinguida e independente. Botava óculos escuros e abria o seu romance Júlia displicentemente para chocar a burguesia que ela já nem sabia identificar. Quando se aborrecia com o romance saltava as páginas, fazia observações, marcava, relacionava, citava e modificava passagens. Confessara a um namoradinho que um dia escreveria um romance como Júlia e que sim seria um sucesso e que neguinho nenhum ia falar mal dela.
Letícia deslumbrava os seus namoradinhos.
Tudo isso eu lembrava, conversava e ria com ela naquela mesa de bar, tão irreal, tão triste e melancólica. Tive medo, muito medo. O medo era tanto que quando pedimos a conta senti um peso no estômago, uma aflição, uma tonteira que me deixou assustado. Depois daquela mesa seria cada um por si, com as suas loucuras e seus apartamentos. Fiquei assustado, tentei pedir saideras sem sucesso. Fomos caminhando junto com o sol já baixo. Confessamos amores, alegrias e decepções mais uma vez, e tomamos o caminho para a faculdade onde havíamos nos conhecido. Caminhamos pelo campus relembrando os momentos que nos pareciam distantes e nos provocavam uma certa tristeza alegre, madura e vivida. Letícia estava menstruada naquele dia e precisava ir ao banheiro. Fiquei esperando do lado de fora conversando com ela numa faculdade vazia de sexta a noite, último horário. As raras figuras que apareciam eram calouros, seres perdidos, orientandos vagando com seus sonhos e certezas. De repente fui tomado por um excesso de ternura por todos esses seres admiráveis. Cheguei a chorar escancarando a minha crise para Letícia que ficava me consolando bêbada, à sua maneira linda e admirável. Como ela se punha maternal nesses momentos! Logo ela que desdenhava a maternidade! Fomos ver o luar, pois a lua estava cheia e bonita. Olhamos a paisagem da baía de Guanabara, as árvores e o centro da cidade ao longe. A alguns metros de nós se encerrava um congresso vazio de Filosofia e uma mesa de quitutes variados nos oferecia uma espécie de paraíso na terra. “Ah, a academia...” suspirou apaixonada Letícia agarrando meu braço e me puxando até os quitutes. Comemos horrores. Letícia não conhecia o molho agridoce e ficou extremamente deslumbrada com a mistura do salgado com o doce. “Bem-vinda ao mundo do agridoce” disse-lhe. Notei que ela gostou bastante dessa frase e ficou repetindo para melhor guardá-la na sua cabeça. Isso me emocionou. Comemos muito e saímos de lá satisfeito, barriga cheia, embriaguez leve e pesada de verão passando. Caminhamos até as barcas e zarpamos para o outro lado da baía que estava linda. Passamos pela praça altivos, belos, robustos e bem alimentados. Adiávamos nossa despedida disfarçadamente. Fingíamos não ver os ônibus que passavam.
Mas uma vez temi a sensação de fim de livro, de fim de romance, de penúltimas páginas, onde todo um mundo de possibilidade se encaminha inexoravelmente para a frieza de uma única folha, de um único parágrafo deixando o leitor desconsolado, à deriva, tendo que lidar com o vazio de tudo. Me senti o vazio de tudo e procurei explicar isso a Letícia. Ela pareceu não entender muito. Começávamos a entrar em sintonias diferentes e isso de alguma maneira me assustava e me aliviava. Nos apressamos e decidimos que dessa vez nos despediríamos. Trocamos carinhos, declarações de amor, encontros e desencontros. O ônibus dela chegou primeiro apontando lá praqueles cantos tristes do aterro. O meu chegou tempo depois. Coração pesado, tristeza triste, vontade de dormir, subi no ônibus passei pela roleta e encostei minha cabeça na janela sem forças inclusive para chorar e curtir a minha pieguice.
domingo, novembro 08, 2009
Ya sé que no soy amigo del Rey. Sé de muchas cosas pero ellas no me sirven para nada.
Ya sé que el mar te observa también. Ya sé que a ti te gusta el olor del mar. Y que a veces te agarra algo que no sabés nombrar.
Sé de todo eso. Pero todo eso, todo es es tan tan poco.
Eu não quis escrever Letícia desde que ela chegou aqui anunciando mudanças de condutas, planos e tantas e tantas outras coisas.
Tocou a música afinal. Não fui culpa minha. Fazia muito, muito, muito tempo que eu não a escutava. Juro, juro que não foi culpa minha nem de ninguém. Foi brabo. Não quis ouvir, tive que ouvir e me resignei.
Em pedaços.
eu.
Ya sé que el mar te observa también. Ya sé que a ti te gusta el olor del mar. Y que a veces te agarra algo que no sabés nombrar.
Sé de todo eso. Pero todo eso, todo es es tan tan poco.
Eu não quis escrever Letícia desde que ela chegou aqui anunciando mudanças de condutas, planos e tantas e tantas outras coisas.
Tocou a música afinal. Não fui culpa minha. Fazia muito, muito, muito tempo que eu não a escutava. Juro, juro que não foi culpa minha nem de ninguém. Foi brabo. Não quis ouvir, tive que ouvir e me resignei.
Em pedaços.
eu.
quarta-feira, novembro 04, 2009
Voltei.
Eu agora sou dado à poesia
Imenso acaso que brotou no meu ego
Eu agora sou assim escravo à toa
Poeta sem olhos
Fiscal de lembranças
Decorando a entrada dos fragmentos
Eu agora sou dado ao jogo das contas de vil metal
Observo olhares bancando o intelectual
Xoxando intensidade
Sendo e não sendo na moral
Agora vou mandando tomar no cu o pão de açúcar
O Cristo
A baía
O outro lado
E as árvores solitárias do aterro com caras de solteirona
Arrependendo-me duas vezes
Limo verso nenhum
Tento gostar de João Cabral
Pra soar chic e legal
Mas verso branco aqui não é nem cinza
Nem preto
Nem de cor nenhum
E meu amor é como Deus
Uma vez inventado é difícil de desinventar
Fica lá mexendo, mexendo e mexendo
E enquanto não consigo pagar o analista
Volto à estética da ingenuidade
Escrevo as coisas mais bonitinhas novamente
Desenhozinho na folha branca entregue a Tia do Jardim
O tempo passa a mão e muito
Vai sarrando sarrando e eu vou me adiantando
Fazendo a egípcia
Cú doce
E falsa timidez
Vou comprando no cartão
Adiantando bolsas
Escolhendo papel de parede
Baixando os últimos lançamentos da mpb bicha velha samambaia gato e solos de jazz que calam fundo
Nas noites de sábado terra de ninguém
Imenso acaso que brotou no meu ego
Eu agora sou assim escravo à toa
Poeta sem olhos
Fiscal de lembranças
Decorando a entrada dos fragmentos
Eu agora sou dado ao jogo das contas de vil metal
Observo olhares bancando o intelectual
Xoxando intensidade
Sendo e não sendo na moral
Agora vou mandando tomar no cu o pão de açúcar
O Cristo
A baía
O outro lado
E as árvores solitárias do aterro com caras de solteirona
Arrependendo-me duas vezes
Limo verso nenhum
Tento gostar de João Cabral
Pra soar chic e legal
Mas verso branco aqui não é nem cinza
Nem preto
Nem de cor nenhum
E meu amor é como Deus
Uma vez inventado é difícil de desinventar
Fica lá mexendo, mexendo e mexendo
E enquanto não consigo pagar o analista
Volto à estética da ingenuidade
Escrevo as coisas mais bonitinhas novamente
Desenhozinho na folha branca entregue a Tia do Jardim
O tempo passa a mão e muito
Vai sarrando sarrando e eu vou me adiantando
Fazendo a egípcia
Cú doce
E falsa timidez
Vou comprando no cartão
Adiantando bolsas
Escolhendo papel de parede
Baixando os últimos lançamentos da mpb bicha velha samambaia gato e solos de jazz que calam fundo
Nas noites de sábado terra de ninguém
terça-feira, novembro 03, 2009
Laconismo Complicado
Escrita assim é auto-ajuda.
E eu já não tenho mais pudor.
Mas o poeta lacônico deverá falar:
As eternas tardes de domingo serão vingadas
Cedo ou tarde nas melodias da minha cantora preferida.
E eu já não tenho mais pudor.
Mas o poeta lacônico deverá falar:
As eternas tardes de domingo serão vingadas
Cedo ou tarde nas melodias da minha cantora preferida.
sexta-feira, outubro 30, 2009
Mas tantas, tantas fiz....
Amor, as poesias que escrevo para você
Estão cada vez mais ruinzinhas
Fraquinhas que só elas
Fingindo ingenuidades
Digressões inúteis
Eu já tentei de tudo:
Ovídio
Macumba
Remedinhos e Comidinhas
Análise de grupo
Saraus literários
Teses
&
Dissertações
Ai amor, que sina!
Ninguém merece
Ler Florbela Espanca e ficar dando choradinhas
Ler Paulo Coelho e dar uma de bruxinha
Já tentei ser crente.
Macumbeiro.
Espírita
E metaleiro.
Já tentei ser wicca.
Fiz cerimônia e tudo
Amigos góticos sábios e precisos
Me disseram que o caminho não era por aí.
Tentei também despachozinho sincera.
Bala juquinha, pipoquinha e fitinha
Na passarela do Columbandê jurei te esquecer
Tranquei caminhos,
Jurei tantas juras
Salvei demandas
Dei meia volta em Preto Velho
Mandei se fudê
Costurei na boca do sapo versinhos de amor
Minha decência
Meu orgulho
Meu desejo
Pra quê?
Pra quê?
Pra nada.
Pra vernissage no vazio
Pra melodias surdas
Pra filmes sem comentários
Pra vida de casado com a tristeza,
só e cruel com ares provincianos
Apostólicos, romanos e por aí vai.
E por aí vai.
Estão cada vez mais ruinzinhas
Fraquinhas que só elas
Fingindo ingenuidades
Digressões inúteis
Eu já tentei de tudo:
Ovídio
Macumba
Remedinhos e Comidinhas
Análise de grupo
Saraus literários
Teses
&
Dissertações
Ai amor, que sina!
Ninguém merece
Ler Florbela Espanca e ficar dando choradinhas
Ler Paulo Coelho e dar uma de bruxinha
Já tentei ser crente.
Macumbeiro.
Espírita
E metaleiro.
Já tentei ser wicca.
Fiz cerimônia e tudo
Amigos góticos sábios e precisos
Me disseram que o caminho não era por aí.
Tentei também despachozinho sincera.
Bala juquinha, pipoquinha e fitinha
Na passarela do Columbandê jurei te esquecer
Tranquei caminhos,
Jurei tantas juras
Salvei demandas
Dei meia volta em Preto Velho
Mandei se fudê
Costurei na boca do sapo versinhos de amor
Minha decência
Meu orgulho
Meu desejo
Pra quê?
Pra quê?
Pra nada.
Pra vernissage no vazio
Pra melodias surdas
Pra filmes sem comentários
Pra vida de casado com a tristeza,
só e cruel com ares provincianos
Apostólicos, romanos e por aí vai.
E por aí vai.
terça-feira, outubro 27, 2009
A sonhar com terras livres
Suponhamos então que a minha escrita resolvesse de repente ser aquilo que ela sempre foi e de repente saísse assim com vontade de estar ao teu lado para te perguntar as coisas mais fúteis e sem mais nenhum significado. Pois a coisa funcionou mais ou menos assim: aquele que descia as ladeiras do Pelourinho, com um ar de irrealidade, se surpreendeu de repente com uma canção que inadvertidamente invadiu o seu inseparável MP3, este também amigo de tantas e tantas horas. Descia então o rapazinho as ladeiras com ares de gente comum quando uma voz veio cantando uma musiquinha assim, com uma letra que há muito tempo não visitava seus pensamentos. Era talvez as primeiras lágrimas em território soteropolitano onde cada esquina era pedaço de uma canção já cantada em outro tempo. Tudo dava um ar de lirismo e vontade e desejo que ele escolheu aquele lugar para a sua confissão final, para o send, para o clik do mouse que decidiria assim, o pedacinho do seu coração que ainda insistia em dizer eu te amo.
"e aí, lá de longe, a praça Castro Alves me ofertou, me abriu os braços para as minhas queixas, no tempo em que a felicidade, longe de ser mesquinha tinha nome de gente grande, e ares assim de coisa santa, de coisa real, de coisa inteira, inteirinha. E eu na Ribeira, e eu na Amaralina, e eu no Tororó, e eu no Porto da Barra, e eu em todos aqueles lugares era só mais um de tantos e tantos outros que talvez já saíram lá para cantar, lá para viver... e de súbito toda aquela sinceridade, todo aquele discurso por demais batido me pareceu novamente belo, belo como tudo, belo como a sinceridade jamais gasta, belo como o clichê, belo como a vergonha permitida daquele que se excede, belo como daquela vez em que ouvi da sua voz as melodias das músicas que nunca tinha ouvido e como você cantava bem, e como você cantava bastante bem, se eu soubesse a melodia daquela música do foguete, se eu soubesse aquilo, talvez eu teria chorado por antecipação, não teria me rendido aquele baiãozinho que muito tempo depois me mostrou assim, o amor vazio, o sentimento esse que insiste em bater no nada, na saudade fazendo morada, no tal poço sem fundo.... pensei em poesia, pensei em transformar a dor em muitas e tantas e tantas outras coisas, pensei tanto que me encostei e fingi chorar, fingi emoção extremada e escapei pela Baixa dos Sapateiros jurando que sim, que as coisas um dia sim iriam tomar o seu rumo e tudo iria ser tão feliz, tão lindo que a mera presença, que a mera existência do meu amor já bastaria para acender foguetes e fazer festa e suspirar e dizer no olho que sim, que desde o início aquilo que era pra ser foi"
Quando a felicidade não era mesquinha. As partes envolvidas no contrato da licitação requeriam as probabilidades mais belas, as possibilidades mais lindas. Tudo era potência de existência mais bela. OBSERVAÇÃO : O POETA, cansado de fingir sinceridade, resolve ficar com o dobro do prometido e rouba todos os versos que um dia seriam escrevinhados. Anuncia a quatro cantos, poesias muitas presas e jogadas nos cadernos ameaçados pelo amarelo de tempo, num apartamento perdido na cidade, sábado de sol, verão abrasador, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, sem condição de volta, o tempo em que papai escrevia poesia e as guardava nas gavetinhas, os tempos em que vovô dizia coisas belas das poetas que admirava, o tempo em que meu filho inadvertidamente abriu os cadernos que diziam vinhos de tantos e tantos pesos, que dizia de um dia distante em país estrangeiro, dia de chuva e frio o dia inteiro, dia de outono forte em que o âmago de tudo, em que toda a saudade era a voz de Elizeth a cada minuto cantando e convencendo as dores, convencendo sim, por que não enviar aquela mensagem para aquela pessoa do outro lado por que não confessar o eternal sunhsine of a spotless mind que trazemos dentro da gente, a sinceridade do sonho mais belo de poder dizer que já passou, a vontade mais bela de sair do analista sem reservas nenhuma e ainda assim ter forças o suficiente para jantarzinho tímido amor, como foi seu dia, estou cansado, hoje sim eu quero inventar beleza nos teus olhos eu quero sonhar com o teu sonho, desejar o teu desejo e ir dormir pensando em nada.
"e aí, lá de longe, a praça Castro Alves me ofertou, me abriu os braços para as minhas queixas, no tempo em que a felicidade, longe de ser mesquinha tinha nome de gente grande, e ares assim de coisa santa, de coisa real, de coisa inteira, inteirinha. E eu na Ribeira, e eu na Amaralina, e eu no Tororó, e eu no Porto da Barra, e eu em todos aqueles lugares era só mais um de tantos e tantos outros que talvez já saíram lá para cantar, lá para viver... e de súbito toda aquela sinceridade, todo aquele discurso por demais batido me pareceu novamente belo, belo como tudo, belo como a sinceridade jamais gasta, belo como o clichê, belo como a vergonha permitida daquele que se excede, belo como daquela vez em que ouvi da sua voz as melodias das músicas que nunca tinha ouvido e como você cantava bem, e como você cantava bastante bem, se eu soubesse a melodia daquela música do foguete, se eu soubesse aquilo, talvez eu teria chorado por antecipação, não teria me rendido aquele baiãozinho que muito tempo depois me mostrou assim, o amor vazio, o sentimento esse que insiste em bater no nada, na saudade fazendo morada, no tal poço sem fundo.... pensei em poesia, pensei em transformar a dor em muitas e tantas e tantas outras coisas, pensei tanto que me encostei e fingi chorar, fingi emoção extremada e escapei pela Baixa dos Sapateiros jurando que sim, que as coisas um dia sim iriam tomar o seu rumo e tudo iria ser tão feliz, tão lindo que a mera presença, que a mera existência do meu amor já bastaria para acender foguetes e fazer festa e suspirar e dizer no olho que sim, que desde o início aquilo que era pra ser foi"
Quando a felicidade não era mesquinha. As partes envolvidas no contrato da licitação requeriam as probabilidades mais belas, as possibilidades mais lindas. Tudo era potência de existência mais bela. OBSERVAÇÃO : O POETA, cansado de fingir sinceridade, resolve ficar com o dobro do prometido e rouba todos os versos que um dia seriam escrevinhados. Anuncia a quatro cantos, poesias muitas presas e jogadas nos cadernos ameaçados pelo amarelo de tempo, num apartamento perdido na cidade, sábado de sol, verão abrasador, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, sem condição de volta, o tempo em que papai escrevia poesia e as guardava nas gavetinhas, os tempos em que vovô dizia coisas belas das poetas que admirava, o tempo em que meu filho inadvertidamente abriu os cadernos que diziam vinhos de tantos e tantos pesos, que dizia de um dia distante em país estrangeiro, dia de chuva e frio o dia inteiro, dia de outono forte em que o âmago de tudo, em que toda a saudade era a voz de Elizeth a cada minuto cantando e convencendo as dores, convencendo sim, por que não enviar aquela mensagem para aquela pessoa do outro lado por que não confessar o eternal sunhsine of a spotless mind que trazemos dentro da gente, a sinceridade do sonho mais belo de poder dizer que já passou, a vontade mais bela de sair do analista sem reservas nenhuma e ainda assim ter forças o suficiente para jantarzinho tímido amor, como foi seu dia, estou cansado, hoje sim eu quero inventar beleza nos teus olhos eu quero sonhar com o teu sonho, desejar o teu desejo e ir dormir pensando em nada.
sexta-feira, outubro 23, 2009
A Cartomante
Meu nego
Cheguei a um ponto em que te chamar de meu nego me enche de uma estranha felicidade. Uma felicidade tão sincera, pequena e mesquinha como são as felicidades. Chego a banhar-me de ternura, seja ela qual for, ao te escrever meu nego. É que também as poesias têm rareado, tem ficado assim repetidas, de uma maneira feia e carrancuda observando minha mão trêmula. Talvez seja o tempo passando. Talvez seja a loucura cada vez mais se mostrando como amante certa, segura e corrente. Tenho ouvido muitos discos, discos de vinis belíssimos, verdadeiras pérolas perdidas agora e encaixotadas.
Uma vez em Buenos Aires, quando lá trabalhei como hippie envergonhado nos sinais de Boedo, encontrei uma cartomante. Ela trabalhava lá numa galeria em Caballito. Uma galeria sincera e simpática, ares de decadência aristocrática e sinceridade suburbana. Cheguei lá, trêmulo, influenciado por uma amiga que outro dia tinha visitado a tal cartomante. Eu, que não era dado a crenças, a tudo isso, fiquei assim com uma emoção lispectoriana, vontade louca de ver a cartomante, de achar, na minha inocente crença que poderia literaturalizar a pobre cartomante bancando o poeta misterioso. Ledo engano meu. Abri a porta timidamente e fui sentando na salinha para esperar a minha vez. Paguei-lhe os pesos e sentei-me frente a ela que não me estudou com nenhum olhar aguçado. Foi separando as cartinhas, se apresentando brevemente levantando olho nenhum na sua maquiagem argentina. E eu fui me apresentando, falando da minha vida, contando com o fingido interesse da portenha na minha frente. Era o fim da primavera. Sim, o verão se aproximava e eu me sentia tão feliz que até a dor de amor era coisa linda pra se cultivar. Cortei as cartas e ela começou a analisar.
Me disse de algumas coisas, me disse que fortes mudanças viriam. Falou-me de uma mulher mais velha no meu caminho. Falou-me de problemas amorosos inexistentes, falou-me de repetidos chavões que meu lado cético, iluminista, ateu se acendeu contando vitória. Tentei consertar as coisas, perguntar outras coisinhas, mas não deu resultado. Saí de lá envergonhado, frustrado, caminhando a esmo pelo cinismo da Rivadávia. Ao chegar no meu apartamento ao telefone confessei a minha amiga a farsa de tudo isso, minha decepção e a minha resignação ao mundo e a sua realidade.Hoje, meu nego, descobri que talvez não tenha entendido a cartomante argenta em suas colocações, em sua repetição de lugares comuns, de frases batidas e exclamações mentirosas. Quanto a mulher mais velha agora sim já sei quem é, agora sim já vejo e talvez a cortejo de longe, inventando pra mim talvez nova realidade para me embrenhar.
Hoje aqui nesse auge de primavera, pela primeira vez atrevi-me a curtir neo-fossa com o pseudo-bolero La Distancia. Entendi a pequenez de todas as artes, as vergonhas de todas as declarações. Senti talvez o cinismo do próprio cinismo meu que tem freqüentado meus pensamentos. Pensei muito na poesia da Pizarnik e na guerra que acontece a metros de meu apartamentozinho.
Senti-me profundamente triste com vontade sincera de crer em juízo final.
Cheguei a um ponto em que te chamar de meu nego me enche de uma estranha felicidade. Uma felicidade tão sincera, pequena e mesquinha como são as felicidades. Chego a banhar-me de ternura, seja ela qual for, ao te escrever meu nego. É que também as poesias têm rareado, tem ficado assim repetidas, de uma maneira feia e carrancuda observando minha mão trêmula. Talvez seja o tempo passando. Talvez seja a loucura cada vez mais se mostrando como amante certa, segura e corrente. Tenho ouvido muitos discos, discos de vinis belíssimos, verdadeiras pérolas perdidas agora e encaixotadas.
Uma vez em Buenos Aires, quando lá trabalhei como hippie envergonhado nos sinais de Boedo, encontrei uma cartomante. Ela trabalhava lá numa galeria em Caballito. Uma galeria sincera e simpática, ares de decadência aristocrática e sinceridade suburbana. Cheguei lá, trêmulo, influenciado por uma amiga que outro dia tinha visitado a tal cartomante. Eu, que não era dado a crenças, a tudo isso, fiquei assim com uma emoção lispectoriana, vontade louca de ver a cartomante, de achar, na minha inocente crença que poderia literaturalizar a pobre cartomante bancando o poeta misterioso. Ledo engano meu. Abri a porta timidamente e fui sentando na salinha para esperar a minha vez. Paguei-lhe os pesos e sentei-me frente a ela que não me estudou com nenhum olhar aguçado. Foi separando as cartinhas, se apresentando brevemente levantando olho nenhum na sua maquiagem argentina. E eu fui me apresentando, falando da minha vida, contando com o fingido interesse da portenha na minha frente. Era o fim da primavera. Sim, o verão se aproximava e eu me sentia tão feliz que até a dor de amor era coisa linda pra se cultivar. Cortei as cartas e ela começou a analisar.
Me disse de algumas coisas, me disse que fortes mudanças viriam. Falou-me de uma mulher mais velha no meu caminho. Falou-me de problemas amorosos inexistentes, falou-me de repetidos chavões que meu lado cético, iluminista, ateu se acendeu contando vitória. Tentei consertar as coisas, perguntar outras coisinhas, mas não deu resultado. Saí de lá envergonhado, frustrado, caminhando a esmo pelo cinismo da Rivadávia. Ao chegar no meu apartamento ao telefone confessei a minha amiga a farsa de tudo isso, minha decepção e a minha resignação ao mundo e a sua realidade.Hoje, meu nego, descobri que talvez não tenha entendido a cartomante argenta em suas colocações, em sua repetição de lugares comuns, de frases batidas e exclamações mentirosas. Quanto a mulher mais velha agora sim já sei quem é, agora sim já vejo e talvez a cortejo de longe, inventando pra mim talvez nova realidade para me embrenhar.
Hoje aqui nesse auge de primavera, pela primeira vez atrevi-me a curtir neo-fossa com o pseudo-bolero La Distancia. Entendi a pequenez de todas as artes, as vergonhas de todas as declarações. Senti talvez o cinismo do próprio cinismo meu que tem freqüentado meus pensamentos. Pensei muito na poesia da Pizarnik e na guerra que acontece a metros de meu apartamentozinho.
Senti-me profundamente triste com vontade sincera de crer em juízo final.
Mas parei por aí.
sábado, outubro 17, 2009
Ao Mosquito do Samba, mascote do Parangolé
Mosquito, o Rio hoje está triste e cinza e eu te queria dizer azulado e alegre
E todo o potencial de toda aquela gente ressoa
Não quero conclusões metafóricas para o fogo que lambeu
Não quero imaginar chama de fogo triste dançando labareda
Vai Parangolé, ser livre e dançar nos corpos que ainda hoje sobem e descem e lutam
Vai você que já não tinha nenhum corpo te vestindo mesmo,
Vai entregue-se ao fogo como quem se dá à vida
Nunca, nunca, se precisou tanto afirmar o seu legado e a sua força
E a chuva? De tiros, de primavera triste, e televisões
(Confessarei uma coisa, isso de ser triste tem realmente o seu charme, como Cecília me disse. Outra Cecília quiçá mais nova quiça mais velha também entendida de assuntos de tristezas também me disse ao pé do ouvido que ela ainda era bem moça pra tanta tristeza e que era pra deixar de coisa e sim cuidar da vida pois a morte podia chegar e nos arrastar por aí sem termos visto a vida e eu te confesso que uma vez sim, eu vi alguém subindo com o violão na mão e eu estava no lindo ano de 2009)
O samba chora o feitiço emperra e a primavera encolhe a alegria indecente escondida tão bem escondida nos olhos daqueles que vêem. (tiros, tiros, tiros na brasa do brasil que queima e arde)
Estou possuído
Esse samba vai para o Mosquito. Sambará ainda?
E se eu achar sincera a pureza na sua origem?
Estou possuído porque me colocaram na corcunda e eu anão vi.
Fênix sorrateira, mentira enganosa, penso nisso. No instante esse que antecede o ato.
Alguém disse que não acreditava em Deus que não dançava
Frase Elegantíssima.
Hoje, dezessete de outubro, eu queria me vestir das palavras que arranquei, nada de despir não.
Hoje eu queria sambinha sincero, climinha intimista, cachacinha e você ao meu lado
mas nem a sinceridade nem a intimidade e nem o amor dançam
DESELEGÂNCIA CRETINA FECHO O PONTO NÃO ENVERGONHADO DE MINHA ÉPOCA DIGO QUE NÃO CHEGA DE SAUDADE DIGO QUERO MAIS SAUDADE DIGO DEUS QUE DANÇA DIGO ROUPA LEVE DIGO DA ADVERSIDADE VIVEMOS
Ainda.
*isso não é texto póstumo é texto de nascimento...
sujo da poeira estetizante ouso escrever “a luta continua” sem eco de auto censura ou pudor de musiquinha antiga
*tem gente sabendo: http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/10/16/moradores-do-alto-leblon-farao-protesto-contra-instalacao-do-colegio-espaco-educacao-768095417.asp
E todo o potencial de toda aquela gente ressoa
Não quero conclusões metafóricas para o fogo que lambeu
Não quero imaginar chama de fogo triste dançando labareda
Vai Parangolé, ser livre e dançar nos corpos que ainda hoje sobem e descem e lutam
Vai você que já não tinha nenhum corpo te vestindo mesmo,
Vai entregue-se ao fogo como quem se dá à vida
Nunca, nunca, se precisou tanto afirmar o seu legado e a sua força
E a chuva? De tiros, de primavera triste, e televisões
(Confessarei uma coisa, isso de ser triste tem realmente o seu charme, como Cecília me disse. Outra Cecília quiçá mais nova quiça mais velha também entendida de assuntos de tristezas também me disse ao pé do ouvido que ela ainda era bem moça pra tanta tristeza e que era pra deixar de coisa e sim cuidar da vida pois a morte podia chegar e nos arrastar por aí sem termos visto a vida e eu te confesso que uma vez sim, eu vi alguém subindo com o violão na mão e eu estava no lindo ano de 2009)
O samba chora o feitiço emperra e a primavera encolhe a alegria indecente escondida tão bem escondida nos olhos daqueles que vêem. (tiros, tiros, tiros na brasa do brasil que queima e arde)
Estou possuído
Esse samba vai para o Mosquito. Sambará ainda?
E se eu achar sincera a pureza na sua origem?
Estou possuído porque me colocaram na corcunda e eu anão vi.
Fênix sorrateira, mentira enganosa, penso nisso. No instante esse que antecede o ato.
Alguém disse que não acreditava em Deus que não dançava
Frase Elegantíssima.
Hoje, dezessete de outubro, eu queria me vestir das palavras que arranquei, nada de despir não.
Hoje eu queria sambinha sincero, climinha intimista, cachacinha e você ao meu lado
mas nem a sinceridade nem a intimidade e nem o amor dançam
DESELEGÂNCIA CRETINA FECHO O PONTO NÃO ENVERGONHADO DE MINHA ÉPOCA DIGO QUE NÃO CHEGA DE SAUDADE DIGO QUERO MAIS SAUDADE DIGO DEUS QUE DANÇA DIGO ROUPA LEVE DIGO DA ADVERSIDADE VIVEMOS
Ainda.
*isso não é texto póstumo é texto de nascimento...
sujo da poeira estetizante ouso escrever “a luta continua” sem eco de auto censura ou pudor de musiquinha antiga
*tem gente sabendo: http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/10/16/moradores-do-alto-leblon-farao-protesto-contra-instalacao-do-colegio-espaco-educacao-768095417.asp
sexta-feira, outubro 16, 2009
Ceninha para uma tarde que se fantasiou de alegria
Rio, poeira do tempo:
Ambiente escuro, escrivaninha solitária, spot de luz no ato, mão na pena em bossinha intimista o poeta escreve:
"Baixei a música que você falou. Bateu fundo. Sou tolo ao fazer isso. Mas não posso negar que é belo e tem charminho. E tem verdade sincera, pois dessa vez a música diz tudo. Move o mundo, minha vida e minha loucura. Funciona assim como um eterno espiral, ou então um espelho em frente a outro espelho e vai e vai e vai. É uma dízima, talvez o sentido final dessa minha quixotesca nem por isso burra busca do próprio sentido. ¿Uma cobra mordendo o próprio rabo? Não. Nesse caso há a magia do dois, ainda que ilusória, há ainda vida respirando e céu nascendo em primaveras insuspeitas. E quando a felicidade vem assim mais que clandestina que se faz? Aspira-se a plenitude? Morre-se na canção? Ou vai-se então em assovio, em assovio vai-se até não se sabe onde. Talvez num futuro imaginado isso tudo não passe de peça linda de museu. Um beijo folclórico."
® rêver toute la vie productions
Ambiente escuro, escrivaninha solitária, spot de luz no ato, mão na pena em bossinha intimista o poeta escreve:
"Baixei a música que você falou. Bateu fundo. Sou tolo ao fazer isso. Mas não posso negar que é belo e tem charminho. E tem verdade sincera, pois dessa vez a música diz tudo. Move o mundo, minha vida e minha loucura. Funciona assim como um eterno espiral, ou então um espelho em frente a outro espelho e vai e vai e vai. É uma dízima, talvez o sentido final dessa minha quixotesca nem por isso burra busca do próprio sentido. ¿Uma cobra mordendo o próprio rabo? Não. Nesse caso há a magia do dois, ainda que ilusória, há ainda vida respirando e céu nascendo em primaveras insuspeitas. E quando a felicidade vem assim mais que clandestina que se faz? Aspira-se a plenitude? Morre-se na canção? Ou vai-se então em assovio, em assovio vai-se até não se sabe onde. Talvez num futuro imaginado isso tudo não passe de peça linda de museu. Um beijo folclórico."
® rêver toute la vie productions
quinta-feira, outubro 15, 2009
Carta às macumbas de Eros
Sexta feira, dezesseis de outubro de dois mil e nove
terras distantes e estrangeiras
eu
Talvez os melhores tempos atravessados sobre a terra... Ah, a contemporaneidade, ah palavra vã, ah aquele que discorre a sua filosofia em qualquer cantinho de qualquer lugar.
Eu escrevo sentado aqui dessa terra calma e tranqüila onde o outono já se anuncia pouco a pouco mostrando a sua cara e esfriando qualquer animação minha que tenha a ver com banho nas águas essas de Oxum gringa
Oxum gringa aqui que se veste diferente mas fala talvez pela mesma vogal a mesma língua que São Jorge, São Jorge este que tinha entrado em conluio com São Sebastião e tinha me prometido meses de felicidades eternas e duradouras em cantinho informal da cidade
Mas não estou no Rio de Janeiro e minhas lembranças de lá doem mais quando já faz novembro e o calor é de matar e aqui a solidão dessas duas margens me deixa assim entorpecido me lembrando de tantas outras duas margens
Quando da vez em que apontei horizonte lá no fundo de perder a vista e disse que lá há o outro lado e cantei para mim baixinho que também havia o redentor que lindo
Ao ler então o Rosa e a sua terceira margem fundi a minha cuca e tive vontade de perguntar sobre tudo aquilo que me tirava a calma
Aí fiz análise por um tempo e descobri que sim, isso quer dizer algo mais distante e mais profundo quando um dia
Eu ainda em terras estrangeiras fiquei a gaguejar em frente ao meu professor que me ouvia interessado a minha apresentação e minhas idéias sobre os Fragmentos do Barthes
Disse a ele que a melhor forma de falar sobre o livro não é cair em análises ou considerações a respeito e sim juntamente com ele afirmar o discurso do enamorado, suspirando na frente do professor suspirão sincero e bonito e ouvindo dele aprovação da minha idéia que se queria original
Eu escrevo sentado aqui dessa terra calma e tranqüila onde o outono já se anuncia pouco a pouco mostrando a sua cara e esfriando qualquer animação minha que tenha a ver com banho nas águas essas de Oxum gringa
Oxum gringa aqui que se veste diferente mas fala talvez pela mesma vogal a mesma língua que São Jorge, São Jorge este que tinha entrado em conluio com São Sebastião e tinha me prometido meses de felicidades eternas e duradouras em cantinho informal da cidade
Mas não estou no Rio de Janeiro e minhas lembranças de lá doem mais quando já faz novembro e o calor é de matar e aqui a solidão dessas duas margens me deixa assim entorpecido me lembrando de tantas outras duas margens
Quando da vez em que apontei horizonte lá no fundo de perder a vista e disse que lá há o outro lado e cantei para mim baixinho que também havia o redentor que lindo
Ao ler então o Rosa e a sua terceira margem fundi a minha cuca e tive vontade de perguntar sobre tudo aquilo que me tirava a calma
Aí fiz análise por um tempo e descobri que sim, isso quer dizer algo mais distante e mais profundo quando um dia
Eu ainda em terras estrangeiras fiquei a gaguejar em frente ao meu professor que me ouvia interessado a minha apresentação e minhas idéias sobre os Fragmentos do Barthes
Disse a ele que a melhor forma de falar sobre o livro não é cair em análises ou considerações a respeito e sim juntamente com ele afirmar o discurso do enamorado, suspirando na frente do professor suspirão sincero e bonito e ouvindo dele aprovação da minha idéia que se queria original
Talvez então o lance era entregar-se de corpo e alma enquanto havia tempo. Pensar que há muito para se escrever, há muito para se publicar, olhai o exemplo daquele que tinha como sobrenome Soares dizia a voz interior
E então me vestia de armadura para enfrentar o cotidiano e a sua rotina apaixonante ser máquina viver como máquina seguir a vida dessa forma permitindo algumas vezes por mês emocionar-me com canção, livros, teatro e copinhos de cerveja onde então vislumbrava o futuro brilhante a minha frente pretenso Adonis en train de despir-se completamente no leito de minha amargura
Me convenci que o Brasil sim caminhava para uma maior e mais cínica religiosidade inventei passaportes para carimbar pois em terras de senhor sou exilado convicto
Aí vim a ter aqui nessas terras distantes nem Aruanda nem Uruguai e sim areia de praia que não é branca e com muita gente que não sabe de nada
Assim é muito mais fácil país da Cocanha atrevida sonhando com pintangas e com as noites de Salvador onde fui adolescente e poeta chorando de amor após receber a carta que dizia a verdade final antes pudera eu ter queimado como dizia na canção
Não queimei e li até o fim o amor que se dizia findo e com que misto de vontade e ansiedade recebi aquelas lágrimas que batizei com promessa de cachacinha fortuita passando assim pela Graça por Campo Grande descendo a ladeira da Barra para desembocar-me naquele praia do Porto da Barra mesmo onde não tive pudor em sonhar em ser hippie
Lá chorei e enterrei meu coração com promessa futura de visitas intensas
Nem São Jorge é baiano e fala com sotaque de gringo
Nem São Sebastião me mostrou o amor como era pra ser
Leio Ovídio. Como quem espera uma solução. Safo também. Sofro por Abelardo e Heloísa e brinco de Julieta em frente ao espelho.
Momento vai momento vem eu aqui nesse meu exílio penso em escrever carta assim sincera e longa
Então como mulher de Atenas começo a bordar cartinha sincera que depois desbordo em poesias que guardo em muitas caixinhas
Ainda seguirei o exemplo de Ariadne.
Ou então sim, pararei de sofrer, exorcizando e chutando as macumbas de Eros
Nos meus sonhos mais lindos
E então me vestia de armadura para enfrentar o cotidiano e a sua rotina apaixonante ser máquina viver como máquina seguir a vida dessa forma permitindo algumas vezes por mês emocionar-me com canção, livros, teatro e copinhos de cerveja onde então vislumbrava o futuro brilhante a minha frente pretenso Adonis en train de despir-se completamente no leito de minha amargura
Me convenci que o Brasil sim caminhava para uma maior e mais cínica religiosidade inventei passaportes para carimbar pois em terras de senhor sou exilado convicto
Aí vim a ter aqui nessas terras distantes nem Aruanda nem Uruguai e sim areia de praia que não é branca e com muita gente que não sabe de nada
Assim é muito mais fácil país da Cocanha atrevida sonhando com pintangas e com as noites de Salvador onde fui adolescente e poeta chorando de amor após receber a carta que dizia a verdade final antes pudera eu ter queimado como dizia na canção
Não queimei e li até o fim o amor que se dizia findo e com que misto de vontade e ansiedade recebi aquelas lágrimas que batizei com promessa de cachacinha fortuita passando assim pela Graça por Campo Grande descendo a ladeira da Barra para desembocar-me naquele praia do Porto da Barra mesmo onde não tive pudor em sonhar em ser hippie
Lá chorei e enterrei meu coração com promessa futura de visitas intensas
Nem São Jorge é baiano e fala com sotaque de gringo
Nem São Sebastião me mostrou o amor como era pra ser
Leio Ovídio. Como quem espera uma solução. Safo também. Sofro por Abelardo e Heloísa e brinco de Julieta em frente ao espelho.
Momento vai momento vem eu aqui nesse meu exílio penso em escrever carta assim sincera e longa
Então como mulher de Atenas começo a bordar cartinha sincera que depois desbordo em poesias que guardo em muitas caixinhas
Ainda seguirei o exemplo de Ariadne.
Ou então sim, pararei de sofrer, exorcizando e chutando as macumbas de Eros
Nos meus sonhos mais lindos
Declarações a uma manhã que se vestiu de tristeza
Em cada passo daquela melodia ainda sou o mesmo pretenso romântico quase arrependido do quase final da quase palavra que desatou tudo.
Com medo do sem sentido apego-me a fórmulas fáceis como quem se apega a amores levianos e superficiais
Vou me dando conta que no final encontro o sem sentido hermético de qualquer coisa que não seja um amor que não tenha que se diferenciar de paixão, vontade e vida
Encaro essa não certeza como uma falha séria de qualquer elaboração e a deixo escondida em laboratório e vou temperando assim aos poucos nos textos que não acho medíocres e nas declarações que pretensamente acho válidas
Ainda habita em mim o infame ainda apesar da esquina ter sido dobrada já tenho as lágrimas choradas frente ao espelho ofertadas em mercado livre longe de qualquer pretensa inflação e especulação
Até porque o tempo até porque a memória até porque o passado até porque tudo isso tem o seu preço lá fundo como se a nós tivesse sido ofertado um dia uma verdade maior e depois de vista, nunca esquecida, essa verdade ficaria lá latejando
Oh sinal esse de cumplicidade de quem olhou até o fundo o sem sentido e depois ficou marcado assim reconhecendo no outro desejo o seu próprio
Por mais que não, recuso-me em acreditar numa falta de essência seja a do homem seja a do amor, pois se não temos uma corda melhor a inventamos
O homem essa tal invenção, como terminas o teu livro, o homem continua lá bancando a sua essência que sim, tem que existir, caso contrário não choraria ele tais nomes e tampouco tremeria frente à possibilidade do encontro
Ou talvez sim, talvez sim a invenção final valha mesmo o próprio caráter do homem, a sua linda capacidade de fazer sonhos.
Mas sigo negando. Sigo negando o verso.
O dia em que ele calar, o dia sim que ele calar terei me rendido
A tanta, tanta saudade...
Com medo do sem sentido apego-me a fórmulas fáceis como quem se apega a amores levianos e superficiais
Vou me dando conta que no final encontro o sem sentido hermético de qualquer coisa que não seja um amor que não tenha que se diferenciar de paixão, vontade e vida
Encaro essa não certeza como uma falha séria de qualquer elaboração e a deixo escondida em laboratório e vou temperando assim aos poucos nos textos que não acho medíocres e nas declarações que pretensamente acho válidas
Ainda habita em mim o infame ainda apesar da esquina ter sido dobrada já tenho as lágrimas choradas frente ao espelho ofertadas em mercado livre longe de qualquer pretensa inflação e especulação
Até porque o tempo até porque a memória até porque o passado até porque tudo isso tem o seu preço lá fundo como se a nós tivesse sido ofertado um dia uma verdade maior e depois de vista, nunca esquecida, essa verdade ficaria lá latejando
Oh sinal esse de cumplicidade de quem olhou até o fundo o sem sentido e depois ficou marcado assim reconhecendo no outro desejo o seu próprio
Por mais que não, recuso-me em acreditar numa falta de essência seja a do homem seja a do amor, pois se não temos uma corda melhor a inventamos
O homem essa tal invenção, como terminas o teu livro, o homem continua lá bancando a sua essência que sim, tem que existir, caso contrário não choraria ele tais nomes e tampouco tremeria frente à possibilidade do encontro
Ou talvez sim, talvez sim a invenção final valha mesmo o próprio caráter do homem, a sua linda capacidade de fazer sonhos.
Mas sigo negando. Sigo negando o verso.
O dia em que ele calar, o dia sim que ele calar terei me rendido
A tanta, tanta saudade...
quarta-feira, outubro 14, 2009
Carta ao outono que precisa ir embora.
Descobri que funciona mais ou menos assim: eu me tranco no quarto, ligo o som e deixo a dor doer bastante. E dessa vez a canção era a canção mais bela sem exageros comedidos e sem vontade de jogar todas as fichas de uma vez. Era a beleza que se conjugava de forma muito bonita. Pois na canção, um samba – será antigo? Será nostálgico? – falava-se de folhas secas, falava-se de chuva dentro dos olhos, tudo isso, tudo isso se falava. E eu, reles eu, tinha à minha frente o primeiro outono da minha vida ofertado de forma estrangeira e irreal. E me encantavam as irrealidades. Tanto que não tirei foto. Deixei as folhinhas caírem assim na delas, fiz tratos com elas. Elas que de verde forte ficaram verde escuro depois verde embaçado depois amarelado e depois amarelo bem forte. Foram indo. E tinha outras. Outras mais atrevidas que iam num vermelho vivo e também caíam. Tudo lá pra abril. Eu, que achava que o outono era a minha estação preferida, tive a certeza. E sabia que não ia trair as pobres folhinhas. Sabia vagamente que escrevê-las seria uma traição, seria como não mais participar do clube. E agora, agora que sou um estrangeiro eu as escrevo. Lembro que eu saía chutando, todas elas, quando no final tudo já estava realmente no chão. Em poucas semanas tive tempo de ter angústia de ver o tempo passando. O primeiro que não quero último outono de minha vida. E se eu chorava pra dentro, se eu tinha lágrimas era porque não tinha espaço, não tinha email, não tinha coração pra botar tudo aquilo. Aí eu brincava de escrever cartas, escrevia muitas, endereçava e tudo. Tinha poesia, tinha citação, falava de música, falava de bastante coisa. Como se lá fora tudo estivesse parado e uma folhinha, uma folhinha que seja, conseguisse driblar a tal vontade e ficasse parada no ar esperando cair. Isso foi depois, foi depois que eu mandei emailzinho citando a Ana C. e falando sobre a aprendizagem ou o livro dos prazeres. Tudo era jazz do coração, jazz do coração, jazz do coração... E pensar que o outono naquela época ainda era uma promessa tímida que eu apressava atrapalhando as fotos dos turistas na pracinha, a mesma pracinha que me mostrou o amor em outro país em outro mundo. E eu que não sou dado a estéticas neo-realistas nem a som de orquestras corri pra Igrejinha, peito batendo forte, violinos, coração a mil, quase um Pasolini de tanta emoção esperando meu amor ir embora pra poder pegar o bondezinho que me levaria lá pros cantos almagrinos.
Ah, por que escrever a realidade quando ela fica assim com cara de primavera? É que o Henry Miller fundiu minha cuca. De autobiográfico já basta a vida, de plágio já basta a própria criação. Eu sou dado a cirandas literárias. Sarau pode ser brega, mas eu sempre gostei. Principalmente aqueles em que todos esqueciam os livrinhos abandonados no cantinho da sala. Tinha uns portugueses ótimos esquecidinhos que minha amiga ficava lendo sozinha. Ela sabe a verdade. Ela é o quente.
Não transo essas coisas não. Estou muito admirado como o pessoal dos 70 usava a palavra transa. Usava pra tudo! Hoje ela virou só isso. Vou resgatar a palavra transa. Pois então eu transei uma entrevista de Bethânia, engraçadíssima, que ela deu lá pros cantos de 1969. Pro Pasquim. Coisa fina. De rir até não poder mais. É um humor que se está desprendendo. Tenho medo do tempo e o que ele faz com o humor. Enterra. É bicho ruim. Pisa na cabeça da cobra. O tempo é a prova de que Deus é um joguinho na mão do humano bicho gente. Ou o contrário, quem sabe?
Um beijo.
Até o próximo outono.
Ah, por que escrever a realidade quando ela fica assim com cara de primavera? É que o Henry Miller fundiu minha cuca. De autobiográfico já basta a vida, de plágio já basta a própria criação. Eu sou dado a cirandas literárias. Sarau pode ser brega, mas eu sempre gostei. Principalmente aqueles em que todos esqueciam os livrinhos abandonados no cantinho da sala. Tinha uns portugueses ótimos esquecidinhos que minha amiga ficava lendo sozinha. Ela sabe a verdade. Ela é o quente.
Não transo essas coisas não. Estou muito admirado como o pessoal dos 70 usava a palavra transa. Usava pra tudo! Hoje ela virou só isso. Vou resgatar a palavra transa. Pois então eu transei uma entrevista de Bethânia, engraçadíssima, que ela deu lá pros cantos de 1969. Pro Pasquim. Coisa fina. De rir até não poder mais. É um humor que se está desprendendo. Tenho medo do tempo e o que ele faz com o humor. Enterra. É bicho ruim. Pisa na cabeça da cobra. O tempo é a prova de que Deus é um joguinho na mão do humano bicho gente. Ou o contrário, quem sabe?
Um beijo.
Até o próximo outono.
domingo, outubro 11, 2009
Colombres al 64
A calefação vira inferninho público e eu não vendo drogas, já disse que não vendo drogas, não sou traficante, não as vendo... mas sei cantar as canções do Ben quando da iminência da lucidez embriagada me leve pra casa que quero dormir, quero voltar...
Beber com pouca grana é limpar o estômago para a sinceridade alcoólica. Não gosto do teu fígado e não me apetece vê-lo bonitinho, a gente quer ver ele disposto e cru na mesa rasa.
Gal cantando estrada do sol me leva a Niterói, terra triste e lúcida, irremediavelmente cristã, interiorana, poupando centavos na boca da capital, guardando virgindade já velha frente a Gomorra City Co.
Niterói portal cósmico e fronteira difusa de Norte Fluminense, um pouco de Minas, estado imaginário que se chama cidade pequena e simpática onde o pão chega de manhã sincero e encontra a superfície da mesa sem entraves e suas migalhas se espalham livres e felizes na toalha que se balança quando o gás em botijão se anuncia pelas ruas carnavalizando o interior.
A calefação me irrompe para o momento posterior em que o gás se acende no meu pulmão, quando na verdade ontem eu te fumei passivamente chorando em conta gotas.
E ela ainda não cantou Mãe na tua vitrola e você já se dispôs a abrir as tuas pernas poéticas para aquela melodia inflacionando a tua tristeza, desvalorizando-a irresponsavelmente.
Espremendo do seu olho uma tristezazinha vagabunda e semi-morta.
Entro no meu inferno, ligo a calefação no máximo e me cozinho em banho-maria.
Até ficar no ponto.
Beber com pouca grana é limpar o estômago para a sinceridade alcoólica. Não gosto do teu fígado e não me apetece vê-lo bonitinho, a gente quer ver ele disposto e cru na mesa rasa.
Gal cantando estrada do sol me leva a Niterói, terra triste e lúcida, irremediavelmente cristã, interiorana, poupando centavos na boca da capital, guardando virgindade já velha frente a Gomorra City Co.
Niterói portal cósmico e fronteira difusa de Norte Fluminense, um pouco de Minas, estado imaginário que se chama cidade pequena e simpática onde o pão chega de manhã sincero e encontra a superfície da mesa sem entraves e suas migalhas se espalham livres e felizes na toalha que se balança quando o gás em botijão se anuncia pelas ruas carnavalizando o interior.
A calefação me irrompe para o momento posterior em que o gás se acende no meu pulmão, quando na verdade ontem eu te fumei passivamente chorando em conta gotas.
E ela ainda não cantou Mãe na tua vitrola e você já se dispôs a abrir as tuas pernas poéticas para aquela melodia inflacionando a tua tristeza, desvalorizando-a irresponsavelmente.
Espremendo do seu olho uma tristezazinha vagabunda e semi-morta.
Entro no meu inferno, ligo a calefação no máximo e me cozinho em banho-maria.
Até ficar no ponto.
quarta-feira, outubro 07, 2009
Alejandra Pizarnik
Desde esta orilla
Soy pura
porque la noche que me me encerraba
en su negror mortal
ha huido
W. Blake
Aun cuando el amado
brille en mi sangre
como una estrella colérica
me levanto de mi cadáver
y cuidando de no hollar mi sonrisa muerta
voy al encontro del sol.
Desde esta orilla de nostalgia
todo es ángel.
La musica es amiga del viento
amigo de las flores
amigas de la lluvia
amiga de la muerte
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